segunda-feira, 15 de setembro de 2025

OS BARES DE FERNANDO PESSOA

 


por Ediel Ribeiro


Lisboa, Portugal - 5 de julho de 2023 - Vamos hoje conhecer o charmoso e bucólico Bairro do Chiado onde nasceu e viveu o poeta e escritor Fernando Pessoa, sua casa e seus bares preferidos.

Conheci alguns desses lugares durante minha viagem a Portugal. O local onde Fernando Pessoa nasceu, em 13 de junho de 1888, fica no quarto andar de um prédio charmoso, no número 4 do Largo de São Carlos, localizado na esquina da Rua Serpa Pinto com a Rua  Paiva de Andrada, no tradicional bairro do Chiado. Foi aí que Fernando Pessoa viveu até os 5 anos de idade. O local é assinalado por uma placa e também por uma grande estátua de bronze, cujo rosto é um livro.

O prédio é uma construção típica do século XIX, inspirada no Teatro Della Scala de Milão. Vale passar para fotografar a grande escultura de bronze que fica bem em frente, como forma de homenagear o filho ilustre.

A estátua, feita pelo artista belga Jean-Michel Folon, tem 4 metros de altura e foi inaugurada em 2008 como parte das comemorações dos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Ela mostra um homem cuja cabeça é um livro aberto. Ao lado de uma das sacadas há também uma plaquinha informando sobre o nascimento do poeta.

A casa onde Fernando Pessoa morou nos últimos 15 anos da sua vida, na Rua Coelho da Rocha, 16, em Campo de Ourique, carismático bairro lisboeta, é hoje a Casa Fernando Pessoa, uma ativa casa de cultura, onde se pode visitar o quarto do poeta, com a cómoda original sobre a qual, objetos pessoais como máquina de escrever, os óculos e blocos de apontamentos, entre outros, permanecem como quando o poeta ali viveu e deu voz aos seus principais heterónimos.

Na fachada, algumas frases famosas chamam a atenção. E, do lado de dentro, os ambientes foram reconstituídos, unindo história, memória e literatura. São três pisos com salas de exposições e o quarto do poeta. Tem, também, uma biblioteca, com obras do próprio acervo particular do poeta, que totalizam mais de 1300 publicações, além de uma livraria.


A Praça Dom Pedro IV (mais conhecida como Rossio), fica na região da Baixa. Ao redor dela estão alguns prédios importantes como o Teatro Nacional Dona Maria II. E fica próxima do Elevador de Santa Justa, um dos passeios turísticos imperdíveis em Lisboa.

Lá fica também o ‘Café Nicola’, que existe desde o século XVIII e era um dos preferidos do poeta, além de diversos bares e restaurantes. É uma ótima parada para o almoço ou jantar. O Café Nicola foi fundado em 1787 por um italiano chamado Nicolau Breteiro, conhecido como Nicola. Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do café. O cliente mais conhecido foi o poeta Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805). José Silva, o proprietário do Café Nicola, foi o mais importante apoiador nos anos finais do doente Bocage.


O Café Nicola, hoje uma das atrações turísticas e patrimônio de Portugal, continua sendo um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos. Adquiriu o aspecto atual em 1935, quando foi reconstruída em estilo Art Déco, segundo planos do arquiteto Raul Tojal. Desde então, algumas pinturas a óleo do pintor Fernando dos Santos (1892–1965) mostram cenas da vida de Bocage.

Quando Fernando Pessoa faleceu, em 1935, seu corpo foi sepultado no Cemitério dos Prazeres. Depois de 50 anos, os seus restos mortais foram transferidos para o Mosteiro dos Jerónimos, onde é possível visitar o túmulo, que tem alguns poemas escritos nas laterais.


Localizado às margens do Rio Tejo, o Mosteiro é um dos principais pontos turísticos de Lisboa e recebe cerca de 1 milhão de visitantes por ano. A construção imponente e exuberante é considerada uma verdadeira obra prima, com grande riqueza de detalhes, especialmente na fachada e nos claustros.


Fernando Pessoa era frequentador assíduo do ‘Café a Brasileira’, onde muitos artistas e escritores costumavam se encontrar para conversar sobre livros e literatura. Do lado de dentro, o ambiente é charmoso, com muitas pinturas e espelhos. Mas é do lado de fora que está o principal destaque: uma estátua do poeta sentado em uma das mesas, com uma cadeira vazia do lado – um convite para quem quiser se sentar com ele.


A obra foi uma homenagem ao primeiro centenário de nascimento do poeta, em 1988, e fez com que o Café A Brasileira se tornasse um ponto turístico, onde os viajantes sempre param para tirar a tradicional foto. Uma curiosidade é que o local tem esse nome porque seu fundador visitou o Brasil e passou a importar grãos de café de Minas Gerais.


Fernando António Nogueira Pessoa, ou simplesmente Fernando Pessoa, é hoje o nome da literatura portuguesa mais reconhecido no mundo. Mas ele morreu tendo publicado apenas um livro de versos em português (“Mensagem”, em 1934), além de três livros em inglês. Tinha, também, alguns poemas publicados em jornais com diversos heterônimos (poetas fictícios com personalidades e características próprias, que produziam registros literários diferentes), como Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos.


Mas só alguns anos depois de sua morte é que foram descobertos inúmeros textos inéditos guardados em um baú. Eram cerca de 27 mil fragmentos!

Foi então que a profundidade de sua obra começou a ganhar destaque, provocando uma revolução no meio literário e transformando-o no grande nome que é hoje.


O ‘Café Martinho da Arcada’, na Praça do Comércio, 3, é outro local em Lisboa que tinha Fernando Pessoa como um frequentador assíduo. Ele pedia um café e ficava lendo e escrevendo. Era como se fosse o seu escritório. E há até uma citação no poema “Sá Carneiro”.


O poeta esteve lá pela última vez três dias antes de morrer. Em homenagem, mantiveram a mesa dele arrumada e, em cima, um suporte com um chapéu e uma foto dele no estabelecimento. Há também outras fotos e algumas poesias compondo a decoração.


Tudo isso fez com que o café, que também funciona como restaurante, se tornasse uma atração turística. É uma boa pedida para o almoço ou o jantar, vivenciando um pouco da história local enquanto saboreia pratos tipicamente portugueses.


Fernando Pessoa foi vários poetas ao mesmo tempo. Tendo sido plural, como se definiu. Criou seus heterônimos, com traços e personalidades próprias, cada um com biografias diferentes.

Levei meu livro 'Poesia Suja' e 'Pra Você', livro da poeta Sheila Ferreira, para serem abençoados pelo poeta maior.

Abenção, poeta!

*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.



“Se, depois da minha morte, quiserem escrever minha biografia, não há nada mais simples. Há só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus.”

(Fernando Pessoa)


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