por Ediel Ribeiro
Rio - Imaginemos que, num futuro distópico, o filme “Dark Horse” venceu o ‘Oscar’ de melhor filme estrangeiro.
Ao receber a notícia, em Brasília, Flávio Bolsonaro ficou mais feliz que formiga em tampa de xarope:
- Eu sabia! Eu sabia! - gritou o senador - Vai ser um sucesso mundial.
Já estou projetando uma bilheteria de US$ 100 milhões (cerca de R$ 500 milhões).
- Senador, isso é 316,67% maior que a bilheteria de ‘Minha Mãe é uma Peça’, o maior sucesso de público da história do cinema nacional - questionou um assessor.
- E daí? Você acha que o filme não tem potencial para isso? É uma
superprodução. Só a peruca do Jim Caviezel foi alugada por R$10 mil.
- Pensei que tinha pegado emprestado com o Beiçola - ironizou o
assessor.
O Zero Um, caprichou:
- Fique sabendo que Jair Bolsonaro agora está no panteão da política
mundial, ao lado de Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Idi Amin Dada, grandes homens que tiveram suas vidas e regimes retratados em filmes biográficos ao longo da história do cinema.
- São todos ditadores sanguinários, senador - lembrou o assessor.
O senador engoliu em seco. Flávio anda mais enrolado que Karina da Gama tentando explicar o financiamento do filme.
- Senador, estão dizendo que o “Dark Horse” é um filme de ficção feito
por uma facção.
- Calúnia! Isso é coisa dessa imprensa marromzista! Parece que todo o
mundo entrou para um complô contra o filme. O filme é privado. Patrocinado por um empresário privado. Com dinheiro privado. Tudo privada! Digo, privado - berrou o Zero Um.
- Nós vamos andar pelo tapete vermelho, senador? - quis saber o
assessor.
- Vermelho? Só vou se eles trocarem a cor do tapete.
- Senador, como o senhor vai a premiação se está proibido de deixar o
país e de tornozeleira eletrônica.
- Tá, vou ver pela TV - resmungou Flávio.
- Não fique triste, senador! O Vorcaro, o Mário Frias e a Karina da
Gama, também não vão, ou estão presos ou de tornozeleira eletrônica.
O assessor liga a TV.
- Vai começar, senador - avisou.
O semblante do senador muda quando o título do filme aparece na tela:
- “MEU PAI É UMA FARSA”!!?? Este não é o título original do ‘meu’ filme -
berrou Flávio.
- Os americanos sempre trocam o nome dos filmes para países latinos
americanos - lembrou o assessor.
A película começa com imagens dos policiais federais examinando a tornozeleira do ex-presidente, destruída por um ferro de solda. Em flashback, a cena mostra o início na vida militar; a prisão do ex-presidente, acusado por uma reportagem da revista Veja de planejar explosões em vilas militares e na adutora do Guandu para pressionar por aumentos salariais; as mortes de 700 mil pessoas na pandemia; a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023; os escândalos do Banco Master; as emendas parlamentares destinadas ao filme; os desvios de dinheiro dos aposentados para financiar o “Dark Horse” e a vida nababesca de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
- Esse não é o filme do meu pai - berrou Flávio.
- É verdade. É um documentário. Os americanos acham que a vida real do
ex-presidente vai fazer mais sucesso que a ficção.
Flávio ficou furioso e disse, sarcasticamente:
- Bem, não se pode dizer que não tentamos.
*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.
