segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

CLÁUDIO DUARTE, DO TRAÇO AO ROCK



por Ediel Ribeiro


Rio - Tirante o ‘Papa’ Marcelo Monteiro - conhecido carinhosamente como Marcelinho - nenhum ilustrador exerceu mais influência no jornal ‘O Globo’ que Cláudio Duarte.

Cláudio fez parte da ‘geração de ouro’ do jornal que incluiu nomes como Ziraldo, Benício, Fortuna e outros. Seu trabalho ajudou a consolidar uma identidade visual própria em diversas editorias, sendo amplamente utilizado em colunas e projetos especiais. Duarte fazia todas as capas do antigo ‘Jornal da Família’, que era publicado todos os domingos em ‘O Globo’. 

Cláudio trabalhou n´O Globo por quase 30 anos. Reconhecido no meio jornalístico, ao longo de sua carreira, ganhou vários prêmios de design com suas ilustrações, tanto nacionais quanto internacionais, entre eles, o Prêmio Esso de Artes Visuais, em 2001, e construiu uma carreira marcada pela versatilidade e pela sensibilidade artística. 

O cartunista era bastante requisitado pelos editores do jornal pela versatilidade e agilidade. Durante sua passagem pelo ‘O Globo’, Cláudio Duarte, por anos, foi o responsável pelas ilustrações da coluna Carlos Swann  e das chamadas “calungas”, pequenos desenhos usados para ilustrar notas e notícias curtas, além de caricaturas que marcaram capas de cadernos do jornal.

Autodidata, Claudio Duarte nasceu no dia 31 de janeiro de 1959, no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar. Foi ilustrador, caricaturista, cartunista e designer gráfico. Começou a publicar na imprensa em 1982, com ilustrações, charges e cartuns para o jornal ‘Tribuna de Petrópolis’, do Rio de Janeiro. 

A convite de Carlos Heitor Cony, fez parte da equipe de ilustradores da Bloch Editores, trabalhando para as revistas ‘Manchete’, ‘Fatos’ e outras publicações do grupo.

O cartunista, era conhecido pelos colegas pela sensibilidade para ilustrar assuntos delicados, e foi um dos primeiros profissionais do jornal a se adaptar plenamente às ferramentas digitais, dominando softwares como o Photoshop e CorelDraw, ainda nos primórdios da transição tecnológica, mesmo com o início da carreira ainda na época do papel e lápis. 

Em agosto de 1986 foi contratado pelo Jornal ‘O Globo’ onde conseguiu alguns prêmios internacionais. Pela  The Society for News Design  obteve 7 premiações, entre elas uma medalha de ouro e outra de prata. No Brasil, em 2001, ganhou o ‘Prêmio Esso’, na categoria de artes gráficas. Em 2020, venceu o 47º Salão do Humor de Piracicaba na categoria Caricatura.

Cláudio Duarte foi um dos cartunistas participantes do livro "Ziraldo 85 - Ao Mestre Com Carinho" (Melhoramentos/2018), em homenagem aos 85 anos do Ziraldo, a convite do cartunista Edra, autor do livro.

Publicou seus trabalhos também no jornal ‘Extra’ e em importantes editoras como ‘Abril’, ‘Record’, ‘Rocco’, ‘Objetiva’, ‘Salamandra’ e Vozes’’. Na área corporativa, trabalhou para empresas como Petrobrás, Shell, Banco do Brasil, Real Grandeza, CREA-RJ e Sindmar.

Nunca marcamos um encontro. Mas, por várias vezes, nos esbarramos em eventos no Rio e em São Paulo. Participei com ele do livro ‘90 Maluquinhos por Ziraldo’, da Exposição em homenagem a Paulo Caruso organizada pelo cartunista JAL e HQMIX e fomos jurados do Salão de Humor de Caratinga - MG.

O cartunista era apaixonado pelo Botafogo e por música, principalmente por rock and roll. Chegou a atuar como guitarrista, violinista e compositor, de uma pequena banda da equipe de arte de ‘O Globo”, chamada “Moleque Burro Blues Band”.


A caricatura era uma das especialidades do artista. Fez duas exposições de arte em Santa Catarina, inspiradas pelo universo musical: “As Cores do Rock”, com caricaturas de roqueiros e roqueiras, e “Música de Preto”, uma homenagem à músicos negros e à Mãe África.

Devoto de São Francisco - protetor dos animais e do meio ambiente -, Cláudio vinha lutando contra um câncer, chegou a fazer uma cirurgia, mas a doença se espalhou. 

O cartunista morreu neste domingo, 4 de janeiro de 2026, aos 66 anos, em Florianópolis, Santa Catarina, onde morava há quase 20 anos com a namorada, a pianista Patrícia Bolsoni e o filho Chico Duarte.

*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.