terça-feira, 8 de setembro de 2026

O MINISTRO E O ALFAIATE DO VORCARO


por Ediel Ribeiro


Rio - Pelo que tenho ouvido, quase todo mundo em Brasília está envolvido com os esquemas do Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master. 


O escândalo do Banco Master deixou de ser apenas um caso de fraude financeira. Tornou-se uma confraria entre bandidos. O Master, para os políticos, funcionava como uma loja de secos e molhados. Tinha de tudo: festinhas milionárias, jatinhos, prostitutas, apartamentos, mansões e, pasmem, ternos de grife.


André Mendonça, o ministro terrivelmente evangélico de Bolsonaro, mais uma vez, foi pego de saia justa - ou melhor, terno justo. Depois de ter tido um encontro secreto com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ministro foi pilhado em uma alfaiataria de luxo de São Paulo, com o advogado do Vorcaro, experimentando um terno de luxo. 


Brasília está pegando fogo.


A polêmica começou após a divulgação de áudios e mensagens do advogado Ciro Soares, ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro: 

- Dani, trouxe o André Mendonça para fazer um terno no Vasco.

- Show! Aquele topete merece um terno bacana - teria dito, Vorcaro.


Enquanto isso, em Brasília, o ministro chamou um assessor:

- Pega o meu terno. Preciso despachar material para que investiguem o senador Jaques Wagner (PT-BA).  

- Já ministro!? Vai fazer o pedido em 9 dias? O senhor levou 75 dias para pedir que investigassem Claudio Castro (PL-RJ).

Precisamos agilizar os trabalhos.

- O ministro Alexandre de Moraes tem criticado seus métodos.

- Alexandre não gosta de mim. Tem inveja do meu topete. 

- Ministro, a imprensa também tem criticado sua pressa em retirar os sigilo de informações que atingem Alexandre de Moraes - adversário declarado do bolsonarismo - e Fábio Luís Lula da Silva.

- Precisamos agilizar os trabalhos!! - disse o ministro indicado ao STF por Jair Bolsonaro. 

- Ministro, a imprensa diz que quando as suspeitas se aproximam da família Bolsonaro, a disposição investigativa do senhor parece perder velocidade, mesmo existindo muito mais do que uma especulação vaga. 

- Provas! Preciso de provas!!

- Ministro, já existem transferências, cobranças registradas, áudios, mensagens revelados pela imprensa, intermediários identificados e versões contraditórias… Ainda assim, os casos de Flávio Bolsonaro e o chamado caso Dark Horse permanecem sob sigilo. O problema, ministro, é a régua que o senhor usa quando as suspeitas alcançam integrantes da própria direita - disse o assessor.

- Eu não posso perder tempo com movimentações de trocados para a produção de um filme série B.

- Trocados!? As informações disponíveis apontam que cerca de R$ 61 milhões teriam sido repassados ao senador Flávio Bolsonaro e que as negociações poderiam alcançar aproximadamente R$134 milhões. Apesar do volume extraordinário, continuam nebulosos o caminho do dinheiro, o orçamento real da produção, os destinatários finais e a justificativa econômica do investimento. 

- Pega o meu terno, insistiu o ministro.

- Ministro, sinto muito, caiu uma taça de vinho no seu terno. Vou tentar tirar a mancha.

O ministro foi enfático:

- Não. Liga pro Daniel!

- O alfaiate?

- Não, o banqueiro.

- O senhor vai mandar fazer um terno num banco?

- O Vorcaro arranja qualquer coisa, de jatinho a terno de grife.

*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.