quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ADEUS, MANGA!

 


por Ediel Ribeiro
Rio - Cássio Manga foi um grande cartunista. Literalmente. Tinha quase dois metros de pura genialidade.
Grande na altura e no talento, Cássio Manga foi caricaturista, cartunista, compositor, designer gráfico, ilustrador, cantor e diretor de arte.
Nascido Cássio Scavone, na cidade de São Paulo, em 30 de março de 1962, o ‘Manga’ veio (substituindo o apelido “Macarrão”, que ele odiava) quando rasparam sua cabeça ao ingressar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
“Parecia mesmo uma manga chupada” - dizia ele, rindo.
Foi o cartunista Jal que me apresentou ao Manga. Nossos encontros eram esporádicos. Nos encontrávamos sempre que eu ia a São Paulo para lançamentos de livros, salões de humor ou exposições em que ele também participava; como as exposições sobre Paulo Caruso e Angeli e o lançamento do livro “90 Maluquinhos por Ziraldo”, comemorativo aos 90 anos do pai do ‘Menino Maluquinho’, organizados pelo cartunista Edra Amorim.
O cartunista era apaixonado pelo Palmeiras. Tivemos algumas discussões, eu defendendo o meu ‘Mengão’ e ele o seu ‘Verdão’. Apesar de palmeirense doente, certa vez desfilou na comissão de frente da Gaviões Serranos:
“Há, rapaz! Causei maior estrago. Na primeira noite, entrei no desfile na Comissão de Frente (Silvana, minha mulher, fazia parte dela) e só saí quando a Escola toda passou. Mais me enquadraram, e me comportei bem no segundo dia. Fiquei na ala fazendo coreografia de mosqueteiro. O mais louco é que desfilava com o distintivo do Corinthians sem problema algum. Hoje, apanharia dos meus amigos palmeirenses” - contava, sorrindo.
Boêmio, era frequentador assíduo da Praça Benedito Calixto, no bairro Pinheiros, onde acontece todos os sábados uma das feiras mais tradicionais e famosas da cidade: a ‘Feira de Artes, Cultura e Antiguidades’. Ficava no ‘Cantinho Português’, uma das mais tradicionais e famosas barracas de comida de rua de São Paulo, comandada por Dona Vera, recebendo os amigos e ouvindo chorinhos.
Manga também era poeta. Fazia aqueles poemas no estilo palíndromo (palavra do grego palin que significa "para trás, novamente", combinado com dromos que significa "caminho" ou "corrida"), difícil pra cacete. Uma vez me mandou um palíndromo em que brincava com o meu nome: “Ediel é Leide”.
O cartunista publicou um livro de poemas em palíndromos com o título de ‘Palindroemas’, ilustrado e lançado por ele na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Publicou seus trabalhos nos jornais ‘Folha de São Paulo’, ‘Pasquim 21’, e nas revistas ‘Mad’ e ‘O Paulistano’, entre outras. Fez capas para as revistas ‘Primeira Leitura’, ‘Mad’ , ‘Courier’ (Japão) e ‘Pasquim’, onde dividia espaço com a célebre geração que moldou o humor crítico nacional — que incluía nomes como Jaguar, Ziraldo, Nani e Millôr Fernandes, entre outros —, seu traço combinava com a proposta irreverente e a "estética de botequim" que ditavam o ritmo do jornal.
Participou de inúmeras exposições e salões de humor; entre eles os tradicionais ‘Salão de Humor de Piracicaba’ e 'Salão Internacional de Humor de Caratinga'. Expôs seus trabalhos em mostras coletivas, incluindo exibições organizadas nas estações do Metrô de São Paulo, pelo cartunista Jal. Integrou mostras virtuais coletivas de grande repercussão, como a exposição realizada por cartunistas em homenagem ao jornalista Ricardo Boechat, Sílvio Santos, Paulo Caruso e Angeli. Ilustrou com caricaturas animadas (giffs) o quadro “Pra Quem Você Tira o Chapéu”, do Programa Raul Gil, no SBT. Trabalhou em agências de propaganda e como Designer de Publicidade para a revista ‘Tudo’.
Artista multifacetado, Manga apresentou também o quadro de comédia “stand-up” - ‘Deu pano pro Manga’ - em bares e teatros de São Paulo. Co-escreveu e atuou na peça ‘Sobre Humano’. Produziu, escreveu e apresentou o programa ‘Fiapos do Manga’, na KazTV.
Além das artes visuais, Cássio Manga teve forte ligação com o meio musical. Fundou, junto com o cartunista Ruy Jobim Neto e o maestro Gerson Grünblatt, a Cia. ‘Mestremundo de Histórias’, uma produtora voltada a misturar humor, dramaturgia, música e discussões sobre a cultura brasileira por meio de shows e pocket-shows.
Cássio Manga faleceu na última quarta-feira, dia 14 de outubro de 2026, em São Paulo, vítima de um infarto fulminante.
Adeus, amigo!
* Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.
*Foto: Paulo Vitale.