quarta-feira, 22 de abril de 2026

TONINHO VAZ, ALÉM DE TUDO, POETA

por Ediel Ribeiro


“Considero o ato de escrever poemas o mesmo que fazer arte.” (Toninho Vaz)


Rio - Conheci Toninho Vaz e sua obra - ou parte dela - quando escrevi sobre o Solar da Fossa, um casarão de dois pavimentos no bairro de Botafogo, onde hoje é o Shopping RioSul,  que funcionou de 1964 a 1971 e virou refúgio de jovens porras-loucas, artistas, revolucionários e idealistas. Para mim, as informações descritas no livro “Solar da Fossa”, de Toninho Vaz, foram cruciais para entender a magia e a aura que pairava sobre os 85 apartamentos da pensão.


Além do livro sobre o Solar, o jornalista Toninho Vaz escreveu, entre outras, as obras ‘Paulo Leminski, o bandido que sabia latim’ (2001); ‘Pra mim chega, a biografia de Torquato Neto’, (2004); ‘Darcy Ribeiro – Nomes que honram o Senado’ (2005); ‘Santa Edwiges, a santa libertária’,(2005); ‘90 Anos de Cinema - A história do Grupo Severiano Ribeiro’, (2007); "Solar da fossa", (2011); ‘O fabuloso Zé Rodrix’, (2017), ‘Meu nome é ébano, a vida e a obra de Luiz Melodia’ e a inacabada biografia do maestro Rogério Duprat.


Amigo do poeta Paulo Leminski, Vaz gostava de lembrar a influência do amigo na sua carreira: “Sou o que sou por causa dele. Pelo bem ou pelo mal. Meu professor, meu amigo e compadre. Já escrevi 8 livros e estou escrevendo mais um por influência direta dele. Quando conheci o Paulo Leminski eu tinha 20 anos. Estava ainda lendo os clássicos, Flaubert  Dostoiévski, Joseph Conrad Machado de Assis. O Paulo mudou esse quadro me apresentando a literatura mais experimental, a vanguarda de Guimarães Rosa, Oswald de Andrade, Ezra Pound, Augusto de Campos. Me atrevia a escrever textos autorais timidamente. Mas tudo que escrevia submetia a ele. Um dia lhe passei quatro laudas de um texto desses. Ele leu, abaixou as folhas e me falou incisivamente: ‘Se você  quiser pode viver de escrever, que é uma coisa sofisticada. Mas precisa ler mais, muito mais…’. Eu levei a sério”.


Antonio Carlos Martins Vaz, ou simplesmente Toninho Vaz, como era conhecido, nasceu em Curitiba, Paraná, no dia 2 de outubro de 1947. Jornalista, roteirista, escritor, poeta e biógrafo, publicou seus primeiros textos – sobre cinema – como colaborador do suplemento cultural do Diário do Paraná, aos 21 anos.


Seu primeiro emprego em jornal foi como repórter e editor  do ‘Diário da Tarde’, pertencente ao grupo ‘Gazeta do Povo’, em 1972. Em 1974, mudou-se para o Rio de Janeiro onde foi repórter da revista ‘IstoÉ’ e colaborador da ‘Revista de Domingo’, do ‘Jornal do Brasil’. Publicou artigos e reportagens em diversas revistas nacionais: ‘Fatos & Fotos’, ‘Manchete’, ‘Pasquim’ e outras.


Na TV, foi editor de texto do ‘Jornal da Band’, entre 1979 e 1980. Durante quatorze anos ocupou a função de editor de texto na Rede Globo de Televisão em telejornais e programas semanais (‘Jornal Nacional’, ‘Globo Esporte’, ‘Fantástico’). Mudou-se para Nova Iorque, onde, entre 1995 e 1997, foi produtor e editor da ‘Rede Globo’ e do ‘SBT’. Em 1998, trabalhou como editor e produtor na rede norte-americana ‘CBS Television’, em Miami. Apaixonado pelo mar, de 1998 a 2001 foi editor da ‘Revista Pesca Esportiva’ e repórter especial da ‘Revista Náutica’, em São Paulo. O jornalista morou nos Estados Unidos  (Califórnia, Chicago, Manhattan ), conheceu quase toda a Europa e América Latina.  Metade a trabalho,  metade férias.


Amigo pessoal de Darcy Ribeiro - chegava a ficar (ele e Naná) dois meses na casa do sociólogo, em Maricá -, em 2006, trabalhou como editor e redator em várias publicações da Fundação Darcy Ribeiro, incluindo o “Jornal Confronto” e as mídias eletrônicas (DVDs). Por fim, trabalhou como repórter freelancer do site de jornalismo ‘No Mínimo.com’, em 2006. 


Alegre e sempre bem humorado, Toninho costumava dizer: “Pensando bem, no inventário das coisas, minha vida foi animada. É incrível como ainda estou vivo. Cheio de comorbidades, quatro pontes de safena, câncer no rim, diabético, é inevitável avaliar que tive uma vida boa. Tirando a infância trágica, depois dos 20 anos foi só alegria, coisa boa, incluindo minha mudança para o Rio, onde encontrei o amor”. O amor, citado  pelo escritor, era Naná, uma bela moça que ele conheceu na noite de réveillon, na cobertura dos amigos Wambier e Dalva, ao lado do Bar Lagoa. Um amor que durou 45 anos.


Toninho gostava de contar histórias. Uma delas:

“Eu e José Trajano chegamos na churrascaria Plataforma e  encontramos o Tom Jobim sozinho, sentado numa mesa. O Jota (apelido do Trajano) nos apresentou (a irmã dele, Maria, era backing vocal do Tom) e nos sentamos com ele. O Tom achou oportuno perguntar:

- Toninho? É meu xará então.

Eu confirmei: Antonio Carlos.

O Tom ficou excitado e puxou um livro que estava sobre a mesa e me mostrou: "O significado dos nomes próprios". E comentou:

- Sabe o que significa o nosso nome?

- Ainda não!

- Antonio quer dizer Incomensurável. E Carlos significa macho. 

Veja só, logo nós,  duas moças”.


Outra: 

“Numa tarde de 2013, entrei no Esch Café e encontrei numa mesa o casal Carvana e Martha Alencar com o amigo (deles), Cláudio Marzo, se recuperando de um AVC ou algo assim. O Carvana falou: "Cláudio, esse cara escreveu a história do Solar da Fossa, onde você aparece com destaque. Você já viu?' Ele não tinha visto. Então, o Carvana pediu a um funcionário do bar para dar um pulo na livraria Argumento e comprar um exemplar, que eu autografei na hora. O Cláudio é mesmo um personagem de destaque na história da famosa pensão”.


Toninho Vaz morreu ontem, 21 de abril de 2026, em sua casa, na Barra da Tijuca, aos 78 anos.


*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.