terça-feira, 29 de setembro de 2026

PARABÉNS, MAFALDA!



por Ediel Ribeiro


Rio – Mafalda, uma jovem senhora de 62 anos, faz aniversário hoje.

Criada pelo cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, Mafalda nasceu em Buenos Aires, no dia 29 de setembro de 1964, em uma família de classe média urbana latino-americana dos anos 1960, mas rapidamente deixou de pertencer apenas à Argentina. Tornou-se uma personagem universal.

Apesar de ter apenas seis anos, Mafalda - uma menina que adora os Beatles e odeia sopa - já questionava os problemas do mundo. A menina queria entender por que havia guerras, por que existiam pobres e ricos, por que os governos não conseguiam resolver os problemas mais elementares das pessoas e por que os adultos pareciam aceitar como naturais tantas coisas evidentemente absurdas.

É uma criança crítica, curiosa, reflexiva, defensora da paz e dos direitos humanos e insatisfeita com um mundo construído pelos adultos.


Quino criou a personagem para uma campanha publicitária que acabou não sendo realizada. A primeira tira de Mafalda foi publicada em 29 de setembro de 1964 na revista argentina 'Primera Plana'. 


Mafalda cresceu simbolicamente em uma época marcada pela Guerra Fria, pela ameaça nuclear, pela Guerra do Vietnã, pelas ditaduras latino-americanas, pelas lutas de libertação nacional e pelas profundas transformações culturais dos anos 1960.

As guerras e os conflitos do mundo estavam permanentemente presentes em suas tiras. Para ela, o planeta parecia um paciente permanentemente enfermo pela ação dos próprios seres humanos.


Mafalda reagia às notícias que chegavam pelo rádio, TV e jornais com a perplexidade de quem ainda não havia aprendido a considerar normal a irracionalidade do mundo. Desconfiava do poder, questionava a autoridade, repudiava a guerra e se indignava com a injustiça social. Ao mesmo tempo, sonhava com paz, democracia e igualdade em uma Argentina que vivia sucessivas crises políticas e golpes militares. 


A América Latina era atravessada por enormes desigualdades sociais e por disputas entre projetos políticos antagônicos. Quino transformou esse ambiente em humor.


O mundo de Mafalda não se resumia só ao pai, um funcionário de uma companhia de seguros que gostava de plantas;  a mãe Raquel, uma típica dona de casa dos anos 1960 que abdicou de seus estudos de piano para cuidar da família ou ao irmão caçula Guille, que nasce ao longo da série (em 1968). 


Quino criou um pequeno universo de personagens que representava diferentes formas de olhar para a sociedade: Manolito era um menino capitalista, fascinado pelo comércio e pelo dinheiro; Susanita sonhava com casamento, filhos e uma vida convencional; Felipe era um sonhador, imaginativo, inseguro e atormentado pelas obrigações escolares; a pequena Libertad era uma menina que carregava no próprio nome uma visão radicalmente política do mundo e ‘Burocracia’, era a tartaruga de estimação de Mafalda, nomeada ironicamente por causa da lentidão do sistema burocrático.


Juntos, os personagens permitiam a Quino discutir capitalismo, consumo, burocracia, educação, machismo, desigualdade, liberdade e democracia sem transformar suas tiras em tratados políticos.


Em 1973, depois de menos de uma década de publicação regular, ele decidiu parar de produzir as tiras de Mafalda. A personagem, no entanto, não envelheceu nem morreu.


Governos mudaram, regimes políticos desapareceram, tecnologias transformaram radicalmente a comunicação e gerações inteiras nasceram mas Mafalda continua diante de seu globo terrestre, olhando para o mundo com espanto.


Quino morreu em 30 de setembro de 2020, aos 88 anos, apenas um dia depois do aniversário da primeira publicação de Mafalda, sua personagem mais famosa.


*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.