domingo, 3 de março de 2024

FUI AO RETIRO DOS ARTISTAS E NÃO VI PERÉIO



por Ediel Ribeiro


“Eu não sou mal educado. Sou escroto mesmo.” (Peréio)

Rio - Na terça-feira de carnaval, fomos, eu e a Sheila, fazer uma visita ao Retiro dos Artistas.

Queria rever e bater um papo com o ator Paulo César Peréio, que conheci no lançamento do livro do Moacyr Luz, “Manual de Sobrevivência nos Butiquins Mais Vagabundos”, editado pela Senac Rio e ilustrado pelo Jaguar, em 2005.

Um funcionário do Retiro (seu lar desde o início de 2020) foi falar com ele que nós estávamos ali para vê-lo.

Peréio:

“Eu não quero ver ninguém, porra! Não quero falar com ninguém, porra! Acabei de almoçar, eu quero dormir, cacete!...”

Era Peréio sendo Peréio. 

Polêmico, desbocado, irritado, irascível e explosivo, Peréio nunca foi chegado a gentilezas. A fama de criador de casos, maldito e cafajeste, no entanto, é merecida. Mas é uma coisa cultivada . O ator construiu este mito, para ser pouco incomodado.  É uma espécie de self-art.

“A relação que tenho com outros atores, no cinema, na TV, no teatro ou na puta que o pariu – é de simpatia ou antipatia. Há atores que são considerados pra cacete, mas detesto”, diz.

Mas Peréio também tem seus ídolos. Não são muitos. O ator escala Nelson Rodrigues e Glauber Rocha na galeria de gênios brasileiros.

Ator e locutor, conhecido por seus trabalhos no cinema, no teatro e na TV, com mais de 50 anos de carreira, já atuou em mais de sessenta filmes, inúmeras peças teatrais e diversas peças publicitárias.

É uma figura onipresente nas telas. Estava no elenco de ”Terra em Transe”, clássico de Glauber Rocha; brilhou como um cafajeste em “Toda Nudez Será Castigada”, filme de Arnaldo Jabor;  e atuou em “Tudo Bem” e “Eu Te Amo”, ambos igualmente dirigidos por Jabor. 

Paulo César de Campos Velho, nasceu no Rio Grande do Sul, na cidade de Alegrete, na fronteira com a Argentina, em 19 de outubro de 1940.


O nome "Peréio" vem de um apelido de infância. "Desde que comecei a dar os primeiros passos, e até hoje, tenho esse andar um pouco jogado pra frente, parecia um preto velho e me apelidaram de "Nego Véio". Aí minha irmã Rosa, que ainda não falava direito, me chamava de Vevéio e meu pai brincava comigo: Vevéio, Peréio, Péio. E acabou virando Peréio".


Peréio foi para Porto Alegre aos 12 anos. Seu pai era militar e a mãe trabalhava na Assembleia Legislativa. Começou como locutor de rádio e passou para o teatro, em grupos como Arena e Oficina. Ao lado de artistas, como Paulo José, e Lilian Lemmertz, fez parte do ‘Teatro de Equipe’, um grupo de atores que marcou o teatro gaúcho nos anos 1950.


Seu primeiro trabalho no cinema foi em 1964, no filme ‘Os Fuzis’, dirigido por Ruy Guerra. No entanto, o reconhecimento só veio em 1975, com o filme ‘As Aventuras Amorosas de um Padeiro’, pelo qual recebeu o ‘Kikito’ de 'Melhor Ator Coadjuvante' no Festival de Gramado. 


Três anos mais tarde conseguiu destaque em triplo, após ser eleito 'Melhor Ator' pelo Festival de Brasília, nas obras ‘Chuvas de Verão’, ‘Tudo Bem’ e ‘A Lira do Delírio’.


Em 1985, voltou a ganhar o ‘Kikito’’ na categoria de ‘Melhor Ator’, por sua atuação no filme ‘Noite’. Além dos 'Kikitos', recebeu o troféu ‘Candango’ de melhor ator no ‘Festival de Cinema de Brasília’ e o ‘Prêmio Saruê’ pela sua atuação em ‘Harmada’, em 2003. Ganhou ainda, na categoria de ‘Melhor Ator Coadjuvante’, por sua atuação em ‘Chuvas de Verão', em 1978. 


O ator já atuou em mais de sessenta filmes e inúmeras peças teatrais. No cinema, foi dirigido por Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Hugo Carvana, Ruy Guerra e Hector Babenco. Enlouquecia os diretores graças aos seus sumiços e atrasos. Irônico e irreverente, ficou conhecido por marcar o final de cada frase sua com a expressão "porra".


Participou de obras de grande projeção, como "Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia" (1977) e "A Dama do Lotação" (1978), assim como de comédias ao estilo de "Assim Era a Pornochanchada" (1978) e "O Segredo da Múmia" (1982). Também teve vários trabalhos na televisão, como em "Roque Santeiro" (1985) e, mais recentemente, na série "Magnífica 70" (2015-2018), da HBO.


Polêmico, em 2008 Peréio criou uma inusitada campanha para a implosão do Cristo Redentor. Em entrevista à revista Veja, disse que "aquela estátua é uma interferência indevida na paisagem. O morro onde ela está é lindo. O Cristo só atrapalha o visual do lugar". 

Ele ainda classificou como um "absurdo" a eleição do Cristo como uma das sete maravilhas do mundo. “Melhor seria se tivesse sido escolhida a estátua do Borba Gato, em Santo Amaro”, disse. 

Ateu e ex-comunista, Peréio afirmou que contratou uma agência de publicidade e que estava recolhendo assinaturas para a campanha de demolição da estátua, símbolo da Cidade do Rio de Janeiro.

Considerado um dos melhores narradores do país e uma das vozes preferidas dos publicitários brasileiros. Ironicamente, em seu filme de estreia, o diretor Ruy Guerra chamou Cecil Thiré para dublá-lo. 

Em 2000, foi homenageado no curta de animação ‘Os Idiotas Mesmo’ (2000), do quadrinista Allan Sieber, inspirado no ator e dublado por ele.  


Em 2023 o mesmo Allan Sieber e Tasso Dourado fizeram o documentário “Peréio, Eu Te Odeio”.  O longa retrata a vida do ator de forma bem-humorada e não muito convencional, através dos relatos de amigos e inimigos.


“10 Centavos para o Número da Besta”, de 2017, é um filme dirigido pelo uruguaio Guillermo Planel. No documentário, Pereio serve de objeto que  analisa a relação do ator com o cinema de forma singular.


Desde 2004, Paréio apresenta o programa de entrevistas ‘Sem Frescura’, no Canal Brasil, dirigido por sua filha, Lara Velho.


Em 2011 concorreu nas eleições para o cargo de vereador pelo PSB, no entanto, com 1483 votos não conseguiu chegar à Câmara de Vereadores de São Paulo.


Pereio foi casado três vezes. Primeiro com a atriz Neila Tavares, mãe de Lara; depois, com Cissa Guimarães, com quem teve dois filhos - Tomás e João, que também é ator. Finalmente, de seu casamento com Suzana César de Andrade, que não é do meio artístico, nasceu Gabriel.

Hoje, com 84 anos, depois de desafiar a resistência do corpo com um catálogo de extravagâncias que faria Keith Richards aconselhá-lo: “Devagar, Peréio!” O ator mudou-se para o ‘Retiro dos Artistas’, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Longe da bebida e das drogas, ele afirmou que não recorreu ao asilo por dificuldades financeiras, e sim para fugir da Covid-19.


*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista, poeta e escritor.