por Ediel Ribeiro
Rio - É no boteco onde tudo começa.
Da piada, ao salão de humor. E foi no “Bar da Tia Ana”, um boteco humilde e boêmio, que ficava na esquina das ruas Coelho de Resende e Eliseu Martins, no centro de Teresina, que em 1981, nasceu a ideia de criação do 1° Salão de Humor do Piauí, em uma uma conversa descontraída entre Kenard Kruel, José Elias Arêa Leão e Albert Piauhy.
O Salão foi um sucesso. Durou 30 anos. A primeira edição aconteceu efetivamente em 1982 e homenageou o cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, editor do jornal ‘Pasquim’. O salão tinha como objetivo lançar novos cartunistas do Norte e Nordeste e exaltar humoristas nacionais e internacionais. Em 2013, ocorreu a 30ª e última edição do evento.
Com o tempo, o Salão de Humor do Piauí transformou-se em um dos maiores do país (junto com o Salão de Piracicaba, em São Paulo), chegou a ganhar, entre outros, o prêmio HQMix de melhor salão de humor do Brasil e revelou grandes nomes do humor do Norte e Nordeste do país, entre eles, Dino Alves.
Dino é um cartunista, caricaturista, jornalista e publicitário, nascido em Brasília, no Hospital Distrital, em 4 de agosto de 1967 e radicado no Piauí. Autodidata, Dino foi um garoto curioso que percebeu o prazer de desenhar, ainda criança, com apenas quatro anos de idade, quando desenhava a mãe cozinhando e passava o tempo livre rabiscando em cadernos escolares.
O traço ainda era ingênuo, mas o menino já carregava o olhar critico, irônico e desconfiado do mundo adulto. Dino passava horas copiando personagens de quadrinhos e criando caricaturas de colegas e professores. O desenho era o refúgio e, ao mesmo tempo, a forma de se expressar.
Nascido em uma família humilde, seu primeiro trabalho foi pintar publicidade em muros da cidade. Na época, com 14 anos de idade, não imaginava que o seu talento lhe abriria tantas portas e lhe proporcionaria uma vida melhor.
O traço, com forte influência dos irmãos Paulo e Chico Caruso, veio da leitura do Pasquim, na infância, em Brasília. O humor de Dino não nos faz gargalhar. Ele nos faz rir na tradição anglo-saxônica de um Swift e de um Mark Twain: o riso irônico de quem vê humor na tragédia.
A família via o talento, mas não imaginava que aquele hobby infantil acabaria se transformando em profissão. Já adolescente, começou a se aproximar do jornalismo e da publicidade, entendendo que a arte poderia dialogar com a realidade e, melhor ainda, provocar reflexão.
No início dos anos 80, Dino desembarca em Teresina. Alí ele se conecta com o movimento do Salão de Humor do Piauí, que surgia em 1982. Aos poucos, conquista espaço nos jornais, 'O Estado' e 'Diário do Povo'. As páginas impressas viram vitrine de seu traço, sempre carregado de humor crítico.
“Defino a caricatura como um trabalho que mistura psicologia com a fisionomia da pessoa” (Dino Alves)
Em 1990 muda-se para São Paulo. Na capital paulista, trabalhou para editoras como ‘Ática’ e a revista ‘Visão’; atuou em publicidade para Carrefour, e emissoras como ‘TV Gazeta’, ‘TV Cultura’, ‘Rede Globo’.
Em 2000 fez um de seus trabalhos mais expressivos na cidade, o mural do estádio do Morumbi, na capital paulista. O mural com 5m x 2,8m retrata os maiores ídolos do São Paulo Futebol Clube, entre eles: Rogério Ceni, Friedenreich, Canhoteiro, Raí, Pedro Rocha, Leônidas, Gerson, Cafu e Zizinho.
São Paulo não foi apenas trabalho, foi laboratório. A correria, a diversidade e os choques sociais da cidade deram ainda mais combustível ao humor gráfico de Dino. Foi ali que ele consolidou um estilo: direto, irônico, capaz de arrancar risadas e incômodos ao mesmo tempo. Quando retornou a capital piauiense, em 2011, já não era só um desenhista promissor — era um cartunista com bagagem nacional. Na volta, organizou o “Piauí Cartoon”, evento que abordou temas como homofobia e violência contra a mulher, com o apoio do Governo do Estado. Participou ainda como jurado ou homenageado em importantes salões de humor pelo país.
Hoje o cartunista tem papel relevante no cenário do humor gráfico no Nordeste, especialmente no Piauí, onde mantém presença ativa, com exposições, interações ao vivo (caricaturas), e participação em eventos que ampliam o alcance do cartum como forma de opinião.
Com mais de 30 anos de carreira, Dino mora hoje em Teresina, onde é professor de desenho em cursos de extensão na área de moda, designer de interiores e arquitetura. Dino também faz charges para um portal e um jornal impresso.
*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.
Foto: divulgação

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