quinta-feira, 27 de agosto de 2026

PROFISSÃO: POLÍTICO


por Ediel Ribeiro


Rio - Outro dia, eu e a mãe dos meus filhos discutimos alegremente sobre o futuro das crianças.


Todo mundo sabe que o futuro das crianças é uma preocupação constante dos pais modernos. Hoje, os casais discutem mais sobre o futuro dos filhos do que sobre o futuro do casamento.


Uma das maiores preocupações dos pais modernos é sobre a profissão dos seus herdeiros. A discussão ficou acalorada quando resolvemos opinar sobre as profissões que as crianças deveriam escolher. Eu preferia que eles fossem jornalistas, como o pai. A mãe deles, no entanto, preferia que tivéssemos um médico e uma advogada na família.


Como argumento, ela lembrou das dificuldades que passamos com o fechamento dos jornais impressos e com os parcos salários dos jornalistas.


Mais do que com a realização profissional, as mães se preocupam com os salários e os benefícios financeiros da profissão. A discussão aumentou quando sugeri que, pensando assim, eles entrassem para a política. A mãe das crianças argumentou que política nem é profissão. 


- E depois, todo mundo sabe que espécie de gente são os políticos: recebem ajuda de custo, diárias de viagens, auxílio-moradia, paletó, transporte, alimentação e creche. E alguns nem filho tem - argumentou.

- Compreendo perfeitamente - respondi. - Mas os políticos não pensam assim. Repare na família Bolsonaro, nenhum deles tem um emprego formal e são todos ricos. 


Como argumento final, usei o fato que os  deputados federais e senadores que concorrem nas eleições de 2026 tiveram um aumento de patrimônio de até 62.247% em relação a 2022. 


O deputado Fred Linhares (Republicanos-DF), por exemplo foi o parlamentar do Congresso Nacional que teve o maior aumento proporcional no valor de bens declarados à Justiça Eleitoral em quatro anos. O patrimônio dele saltou de R$ 10 mil em 2022 para R$ 6,2 milhões em 2026.


Em segundo lugar, está o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ), que declarou R$ 18,3 mil em 2022 e agora tem um patrimônio de R$ 5,5 milhões. A declaração de bens do congressista disparou 29.841% em quatro anos.


O deputado Lula da Fonte (PP-PE) registrou uma evolução patrimonial de 12.900% entre 2022 e 2026. A soma dos bens aumentou de R$ 10 mil para R$ 1,3 milhão  nos mesmos quatro anos.


O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) - pego com uma mala de dinheiro escondida no apartamento - foi o quarto parlamentar que registrou o maior crescimento no patrimônio. Ele saiu de R$ 4,9 mil em 2022 para R$ 600 mil em 2026.


Nikolas Ferreira (PL-MG) aparece em quinto lugar no ranking de deputados que tiveram maior aumento de patrimônio. Nikolas Nikolas declarou R$ 36,8 mil em 2022 e registrou um patrimônio de R$ 3,9 milhões em 2026.

Simone Tebet declarou patrimônio de R$ 10,6 milhões em 2026, crescimento de 282,1% em relação a 2022. 

Ricardo Salles chegou a R$ 9,05 milhões, alta de 90,9%. 

Arthur Lira, por exemplo, declarou em 2022 patrimônio de R$ 5,96 milhões. Em 2026, a declaração chegou a R$ 25,96 milhões: crescimento nominal de 335%. 

Guilherme Derrite declarou R$ 2 milhões, mais que o dobro do patrimônio informado quatro anos antes.

O curioso é que os políticos parecem ter desenvolvido uma habilidade que falta a boa parte dos brasileiros: crescer mesmo quando o país aperta o cinto. 

Na campanha, o candidato promete saúde, educação, segurança, emprego, dignidade e até um futuro melhor. Talvez seja hora de perguntar, com toda a educação democrática possível: pra quem?


*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA E ORGIA



por Ediel Ribeiro


A campanha do senador Flávio Bolsonaro, à presidência da República, assim como a do Palmeiras, no Campeonato Brasileiro, anda derretendo.


O senador chega à largada depois de uma sequência de crises políticas e pessoais. Mas, apesar de todas as más notícias que circulam diariamente na mídia sobre a campanha de Flávio Bolsonaro, uma em especial anda assombrando o staff do candidato.


A possibilidade de divulgação de um vídeo erótico privado envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a preocupar os bastidores de sua pré-campanha à Presidência da República. 


Tudo indica que o vazamento é uma questão de tempo. Estavam só esperando a campanha começar. Segundo um executivo de uma grande emissora de TV, o vídeo seria divulgado semana passada, mas como as notícias negativas sobre o senador não param de chegar, a divulgação do vídeo da suruba - considerada um ás na manga pelos militantes da esquerda - foi sendo adiada.

Na semana passada, a campanha do Zero Um publicou nas páginas oficiais do Senado e da Alerj a informação que o senador tinha uma pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o que não é verdade. 

Valdemar foi duro com o senador:

- Que vacilo, Flávio!!! Você não aprendeu nada com o governo do seu pai? Vários ministros de Jair Bolsonaro mentiram em seus currículos, e todos foram desmascarados: Carlos Alberto Decotelli, Abraham Weintraub, Ricardo Vélez Rodríguez, Damares Alves, Ricardo Salles, todos ‘inflaram’ os currículos. E na UFRJ, Flávio?! Logo você que diz que a universidade pública é um antro de maconheiros?

Em seguida, veio a história da filiação do senador Flávio Bolsonaro que não conseguiu registrar sua candidatura à Presidência da República, após aparecer filiado ao partido Missão nos registros da Justiça Eleitoral. Sem contar, a falsa acusação de que um homem iria esfaqueá-lo em Juiz de Fora e a história de que teria recebido mais de 1.800 ameaças de morte.

A estratégia de defesa de Flávio Bolsonaro já está traçada, caso o vídeo íntimo - uma suruba bancada pelo Vorcaro, com a participação do próprio - seja mesmo divulgado. A principal porta-voz da defesa será Fernanda Bolsonaro, esposa do senador. Um vídeo ao lado da esposa e das filhas já está pronto.  No vídeo, Fernanda afirma que Flávio é um marido fiel e temente a Deus.

O difícil para Flávio será convencer Silas Malafaia. O pastor - que, segundo boatos, não compareceu ao comício de Flávio Bolsonaro na praia de Copacabana porque não tinha com quem deixar o cachorro - anda se afastando do candidato. Além do pastor, não compareceram ao evento Nikolas Ferreira, Zema, Caiado… e o povo. 

Malafaia também não gostou nada do vídeo veiculado pelos marqueteiros da campanha do senador, que mostram o candidato sem camisa e de sunga exibindo uma faixa presidencial. 

- Que merda é aquela, Flávio? Você está em uma campanha eleitoral ou num baile do Gala Gay?

O pastor já deixou claro que, dependendo do teor do vídeo, retira imediatamente o seu apoio. Sem os evangélicos, a candidatura do Zero Um vai de vez pro buraco.

Outro que anda preocupado é Valdemar da Costa Neto. O 'dono' do PL não anda nada satisfeito com os planos de governo de Flávio Bolsonaro. Segundo alguns assessores, 50% dos planos já existem e foram criados pelo Lula e os outros 50% são inconstitucionais.

Valdemar foi duro com o candidato:

- Flávio, qual o seu projeto de governo? 

- Tirar meu pai da cadeia e derrotar o PT!

- Só isso!?

- Não. Vou criar um auxílio para as famílias carentes.

- Isso já existe! Chama-se Bolsa Família.

- Vou levar água para o Nordeste.

- Lula já fez isso.

- Acabar com a escala 6x1.

- Mas, você sempre fez críticas à 6x1.

Flávio deu um sorriso e concluiu:

- Vamos mudar para 7x0.


*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

AS MULHERES E O VICE DE FLÁVIO BOLSONARO


por Ediel Ribeiro


Como todos sabem, nos últimos meses, o candidato à presidência da república, pelo Partido Liberal, Flávio Bolsonaro tem tido sérias dificuldades para escolher um vice-presidente para sua chapa.

Há poucos dias do registro da candidatura na Justiça Eleitoral, caciques do PL se reuniram com o senador e candidato do partido para definir o nome do vice. Só agora posso contar o teor da reunião, desde o começo.


A demora na escolha se deu porque, segundo as pesquisas, os números indicavam que, fosse qual fosse o vice-presidente que o senador escolhesse, ele perderia a eleição, o que o levou a querer concorrer sozinho. 


Mas Valdemar explicou que era imprecindível que ele tivesse um vice:

- Já pensou no seu vice, Flávio?

- Valdemar - perguntou Flávio - eu preciso mesmo ter um candidato a vice-presidente?

- Precisa, sim - respondeu o presidente do Partido Liberal.


Aparentemente, Flávio tem tido dificuldades para encontrar entre os filiados do partido um bom nome político,  alguém que seja honesto e com a ficha limpa que queira associar sua biografia à de Flávio Bolsonaro.

- O que vocês acham do Zé Trovão? - quis saber o senador.

Todos na sala cobriram a boca, tentando conter o riso.

- E o Delegado Caveira?


Mais risos.


   A lista dos prováveis candidatos a vice-presidente do candidato do PL tinha 1 vereador, 30 senadores, 12 governadores, 13 deputados, um mecânico e 15 funcionários fantasmas. Nenhuma mulher.


- Uma mulher, Flávio! É imprescindível que o seu vice seja uma mulher. As mulheres seguem sendo um dos principais desafios para a sua pré-campanha presidencial. 55% das mulheres dizem que não votariam em você de jeito nenhum. - disse Valdemar. 

- O que você acha do Nikolas Ferreira? Com aquela peruca loira ele poderia se passar por mulher - propôs, Flávio.


Mais risos.


O nível de rejeição de Flávio Bolsonaro é herdado principalmente de seu pai, Jair Bolsonaro. O ex-presidente é conhecido por uma coleção de falas machistas e misóginas, como a de que as mulheres deveriam ganhar menos porque engravidam. 

Flávio piorou sua relação com o eleitorado feminino desde que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou vídeos em suas redes sociais em que diz ter sido maltratada e humilhada pelo candidato. 


Sem o avanço de articulações com outros partidos, Flávio pegou o telefone e começou a ligar para algumas possíveis candidatas.

- Alô, Michelle?!

- O que ela disse? - perguntou Valdemar.

- Desligou!

Outra tentativa:

- Alô, é a Júlia Zanatta?

- Não. Ela saiu pra comprar flores.

Outra:

- Alô, posso falar com a Bia Kicis?

- A senadora não está. Quer deixar um recado, seu Flávio? Talvez ela volte ainda esse mês.

Outra:

- Alô, a Daniella Marques está?

- Não tem ninguém aqui com esse nome. E pare de ligar ou eu chamo a polícia!

E outra:

- Alô, é a Clarissa Tércio?

- Tu, tu, tu…


Os números confirmam uma dificuldade histórica do bolsonarismo em conquistar o voto feminino, por isso, numa das tentativas mais vergonhosas para seduzir as mulheres para a vaga, já está em curso um plano batizado de "Brasil por Elas". Alguns dos compromissos que integram o plano:

Acesso à internet para 70 milhões de mulheres, com a possibilidade de fornecer aparelhos tecnológicos a pessoas que "não têm condição" de adquiri-los; 'MarIA', assistente de inteligência artificial para mulheres;  Saúde para Elas; Transformar a Caixa Econômica Federal no "Itaú da favela"; Denúncia facilitada contra violência doméstica; Orientação financeira; Vacinar os filhos; realizar exames preventivos; manter as crianças na escola; ampliar espaços de acolhimento para mulheres em situação de violência; Escola Brasil por elas; Creche garantida para toda criança. Tudo que o pai poderia ter feito em quatro anos de governo e não fez.

Diante da dificuldade para encontrar uma mulher que aceitasse ser vice na chapa do Zero 1, um assessor sugeriu:

- Convida o Renan Bolsonaro. Ele se veste de Mulher Maravilha no carnaval e não declarou sua opção sexual ao TSE. É praticamente uma mulher.

Depois de um silêncio constrangedor, Flávio decidiu:

- Vou convidar o Alfredo Gaspar!

O deputado que está sendo acusado do estrupo de uma menina? - perguntou Valdemar.

- Isso, isso, isso! 

- Esse é mais inteligente que o pai! - gritou Valdemar, encerrando a reunião.

*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.


domingo, 28 de junho de 2026

1968, O ANO DE ZUENIR VENTURA



por Ediel Ribeiro


Rio - Conheci Zuenir Ventura em 1981, no Leblon. Eu tinha acabado de ler “1968: o Ano Que não Terminou” quando esbarrei com ele na Livraria do Pasquim. Trocamos apenas algumas palavra, sobre o livro, acho. Mas nunca esqueci a doçura, a gentileza, a elegância e a inteligência do escritor.


Este mês Zuenir fez 95 anos.


Zuenir é um dos mais consagrados jornalistas e escritores brasileiros. Conhecido pelo olhar aguçado sobre a sociedade e o texto apurado, Zuenir ocupa a Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo o dramaturgo, poeta e romancista Ariano Suassuna. Zuenir consolidou sua trajetória através de coberturas históricas, livros fundamentais e crônicas diárias.


Nascido Zuenir Carlos Ventura, no dia 1 de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais era  filho de Antônio José Ventura e de Herina de Araújo. Aos 11 anos mudou-se com a família para Nova Friburgo e começou a trabalhar como pintor. Depois foi contínuo de banco, faxineiro e balconista.



Zuenir passou por Fonte Nova e Friburgo antes de chegar ao Rio de Janeiro, em 1954, para estudar filosofia. Na faculdade foi indicado pelo professor Élcio Martins para trabalhar nos arquivos da Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, seu primeiro emprego no jornalismo. 


Trabalhava de seis à meia noite recortando jornal, selecionando fotos e textos. Um dia, deram a ele a incumbência de escrever um texto sobre Camus. Carlos Lacerda gostou muito do texto e perguntou quem era o autor. “É o contínuo do arquivo”, disseram. Depois desse dia, Zuenir desceu para a redação e o resto é história.


Em 1954, no Rio de Janeiro, iniciou o curso de Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia, hoje UFRJ. Foi professor de Comunicação Verbal da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), fazendo parte, desde 1963, do grupo inicial fundador desta instituição, mais tarde absorvida pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Trabalhou nos jornais O Globo - onde ganhou o Prêmio Jabuti, em 1995 -, no "Correio da Manhã" e nas revistas "Veja", "O Cruzeiro" e "Visão". Em 1959, foi trabalhar em Paris como correspondente da "Tribuna da Imprensa".


É o sétimo ocupante da cadeira n.º 32 da Academia Brasileira de Letras, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do dramaturgo Ariano Suassuna. Tomou posse em 6 de março de 2015.


Seu livro 1968: o Ano Que não Terminou serviu de inspiração para a minissérie Anos Rebeldes, produzida pela Rede Globo. Além de “1968: o Ano Que não Terminou” — (Editora Nova Fronteira), Zuenir escreveu “Cidade Partida” (Companhia das Letras (1994); “Inveja: Mal Secreto” (Editora Objetiva (1998); “Chico Mendes: Crime e Castigo”; 1968: O Que Fizemos de Nós (Editora Planeta - 2009)) e Sagrada Família  (Alfaguara  - 2012)


Antes de vir para Ipanema, Zuenir morou por dez anos na Urca. No bairro, Zuenir foi preso pela primeira vez pela ditadura militar. “Botaram um grampo no telefone,  o vizinho viu, mas não me avisou”. 


Nos anos 70 foi morar em Ipanema. “Tudo aconteceu no Rio de Janeiro, em 1968. O AI-5 foi aqui; a passeata dos 100 dias, foi aqui; a morte de Edson Luís, foi aqui; a morte de Zu-Zu Angel e do filho dela, tudo foi aqui.


Ziraldo era o guru do Zuenir. “Eu sempre tive muita inveja do Ziraldo, do sucesso do Ziraldo”. “Quando falaram que Ziraldo foi aplaudido por 20 mil pessoas no Maracanãzinho, quando ele foi jurado no famoso Festival Internacional da Canção (FIC) eu fiz uma piada brincando com o ego dele: “Ziraldo, você sabe que tinha um cara lá em cima que te vaiou?” (risos). Além de integrar o júri, o artista desenhou o cartaz e o cobiçado troféu "Galo de Ouro", que era entregue aos vencedores e confeccionado pela joalheria H. Stern.


Zuenir conheceu a mulher Mary na redação da Tribuna da Imprensa. Zuenir era adorado pelo pessoal do cinema. Seus maiores amigos foram Joaquim Pedro, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Jabour.


“Eu descobri o J. Carlos graças ao Cássio Loredano. Um dia ele levou os desenhos do J. Carlos lá em casa e começou a me mostrar. Aí eu fiquei deslumbrado. J. Carlos tinha um talento enorme e dois defeitos: não bebia nem gostava de boteco.”


O Rio tem a mania de desnudar seus ídolos. Brigitte Bardot esteve no Rio de Janeiro em 1962. O Rio parou pra ver Brigitte Bardot. Na segunda semana, quando ela entrou no Bar Degrau, Jaguar virou e disse: “Lá vem aquela chata da Brigitte Bardot”. Ninguém aguentava mais ela.



*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.


sábado, 27 de junho de 2026

SOLAR DA FOSSA

 



por Ediel Ribeiro

Ri Rio - O primeiro a me falar sobre o ‘Solar da Fossa’ foi o jornalista Tony Martinelli - ex- Manchete - que morou no casarão de Botafogo, em época de vacas magras.

Eu me lembro do antigo casarão de dois pavimentos com paredes pintadas de rosa-claro e janelas azuis, que ficava na antiga Fazenda do Vigário, na rua Lauro Müller, 116, em Botafogo, próximo a entrada do Túnel Novo. 

Quando criança, passei várias vezes em frente a ele, em direção a praia de Copacabana. O casarão, um ex-convento colonial em Botafogo, na época, se chamava ‘Pensão Santa Terezinha’ e ficava onde hoje está o Shopping Rio Sul, na entrada do túnel, e hospedou entre as décadas de 60 e 70 estudantes, atores, músicos, jornalistas, todos românticos, boêmios e duros. 

O nome ‘Solar da Fossa’ é atribuído a uma brincadeira do carnavalesco Fernando Pamplona, que, em uma noite de 1967, separado da esposa, descarregou suas malas e sua fossa na recepção da pensão.  

Depois do papo com o Martinelli, resolvi ler o livro “O Solar da Fossa”, do jornalista Toninho Vaz, autor , entre outras, das biografias de duas importantes figuras da cena contracultural brasileira: Paulo Leminski e Torquato Neto, ambos moradores do solar. 

"O elemento vital na aura do Solar era o desejo de liberdade pessoal ou coletiva. Havia algo de revolucionário no ar", conta o autor.

A contribuição do Solar como inspiração para a cultura brasileira da época é infindável. O time de moradores era da pesada: moravam ou frequentavam os corredores do Solar, Caetano Veloso, Zè Keti, Ruy Castro, Cláudio Marzo, Betty Faria, Gal Costa, José Wilker, Paulo Coelho, Paulinho da Viola, Maria Gladys, Darlene Glória, Abel Silva, Paulo Coelho, Naná Vasconcelos, Zé Rodrix, Guarabyra, Darlene Glória, Tânia Scherr, Sueli Costa, Antônio Pitanga, Ítala Nandi, Aderbal Freire Filho e Tim Maia, entre outros.

Maria Gladys, que na época namorava o ‘rei’ Roberto Carlos, trouxe Caetano Veloso, que trouxe os amigos baianos e artistas gráficos Rogério e Roberto Duarte, o cantor e compositor Tom Zé e a cantora Gal Costa. Naquela filial baiana do solar, orbitavam ainda, Gilberto Gil, o poeta Capinam, a cantora Nana Caymmi e o cineasta Glauber Rocha.

O livro de Toninho Vaz é uma viagem romântica, etílica – e, por que não dizer,  lisérgica - e cultural aos anos 60. O solar virou refúgio de jovens porras-loucas, artistas, revolucionários e idealistas que encontraram no local um espaço livre para a criação e, claro, para farras intermináveis. A maioria, jovens que tinham envolvimento na militância estudantil, em ferrenha oposição ao regime militar vigente.

Caetano Veloso criou ali sua primeira canção tropicalista: ‘Paisagem Útil’; criou também ‘Alegria, Alegria'. Pode-se dizer que o solar foi o berço da Tropicália, movimento musical lançado em 1968 com o disco “Tropicália ou Panis et Circencis”. A capa do disco mostra vários moradores do solar e alguns visitantes habituais, como o poeta Torquato Neto e a cantora Nara Leão. O conceito e a criação da capa foram de Rogério Duarte, e a faixa-título “Panis et circenses”, com letra de Caetano, na canção imortalizada pelos Mutantes, fazia referência ao próprio solar:

“Mandei plantar folhas de sonhos no jardim do solar

As folhas sabem procurar pelo sol

E as raízes procurar, procurar..”

 

Paulinho da Viola compôs ali ‘Sinal Fechado’ e usou um dos portais do solar para ilustrar a capa de um disco de 1971; foi lá também que Leminski escreveu ‘Catatau’; Chico Buarque e Marieta Severo tiveram um de seus primeiros encontros, diz Vaz no livro.

Todo mundo queria fazer parte daquele espaço democrático de experimentação artística. Lá era comum esbarrar nos corredores, em diferentes épocas, com gente como Capinam, Edu Lobo, Milton Nascimento, Jards Macalé, Ismael Silva, o coreógrafo Lennie Dale, Hugo Carvana; o artista plástico Hélio Oiticica, Toquinho, Zé Celso Martinez Corrêa, Sidney Miller, David Tygel, Ricardo Vilas, Ronaldo Bastos, Maurício Maestro e os irmãos Jorge e Wally Salomão.

Eram 85 apartamentos pequenos de um, dois ou três quartos. Alguns sem banheiros. O esquema era parecido com o dos modernos apart-hotéis. Funcionários lavavam as roupas e arrumavam os quartos.

“O resultado é que ali estavam porras-loucas, revolucionários, cabeludos, destemidos, grandes talentos e garotas espetaculares que não tinham medo de transar. Para melhor apreciar e entender o fenômeno da contracultura brasileira, o Solar deveria ir para a lâmina do microscópio. 

Todos os vestígios típicos dos anos 60 vão aparecer nos 85 apartamentos da pensão Santa Terezinha, como era o nome oficial. Pelo menos nos três primeiros anos (dos oito de existência) todos pagavam aluguel, depois o esquema foi se alterando e, nos dois últimos anos, ninguém pagava mais nada.

Ficaram famosos os passeios da Maria Gladys, completamente nua pelos corredores do Solar, talvez sob o pretexto de fazer ‘laboratório de teatro’.

‘Audácia e ousadia eram impulsos comuns entre estes jovens’, como diz o Roberto Talma na abertura do meu livro. ‘No Solar da Fossa – onde havia um grande elenco de mulheres bonitas – se você não tivesse alguma literatura, um pensamento filosófico atualizado, uma conversa definida sobre arte, você não comia ninguém.’ 

O local era bem ao estilo sexo, drogas e rock and roll”  disse, Toninho Vaz.

Para Toninho Vaz, o Solar da Fossa, emergiu naqueles anos cinzentos de ditadura, como espécie de reduto de resistência, mas também de sonhos. "O elemento vital na aura do Solar era o desejo de liberdade pessoal ou coletiva. Havia algo de revolucionário no ar", conta o autor.

O Solar era uma grande torre de babel. Em dezembro de 1968, durante o AI-5, decretado pelo governo militar, antes de uma batida policial ao casarão, os moradores enterraram no gramado em frente ao Solar livros de Engels e Marx. A cultura foi seriamente abalada pelo AI-5. O Solar entrou definitivamente em decadência e após alguma resistência, em 1971, o sonho acabou quando o prédio foi demolido para a construção do Shopping Rio Sul. 

“Em cima das melhores ideias socialistas, surgiu o símbolo máximo do capitalismo'', brincou Vaz.

 

*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

CASOS DE FAMILÍCIA



Depois de Dark Horse, outro pangaré cruza o caminho do senador.


por Ediel Ribeiro 


Brasília - Ninguém em Brasília está falando disso, mas há uma crise de relacionamento na família Bolsonaro e está se tornando cada dia mais grave.

Está se falando muito das pressões do caso Banco Master sobre a campanha  presidencial de Flávio Bolsonaro, mas nunca se disse muita coisa sobre os poderes persuasivos da Sra. Bolsonaro.

Ironicamente, a família cujo lema de vida é ‘Deus, pátria e família’ é a que mais briga por religião, poder e família.

Não ouvi a conversas entre os dois, mas posso imaginar que deve ter sido alguma coisa desse gênero.

- Alô! Flávio? É a Michelle!

- O que foi, Michelle? Papai está soluçando outra vez?

- Não, ele está bem. A crise de soluço só ataca quando a Polícia Federal chega.

Sem muita paciência, Flávio foi direto:

- Então, por que você está ligando? Já tenho muita gente no meu pé. Não fosse o André Mendonça, nosso ministro ‘terrivelmente evangélico’, segurando as denúncias, a vaca já teria ido pro brejo. 

- A vaca, não. O pangaré, - ironizou a ex-primeira dama. - É a décima vez que ligo hoje, porque você não atende as minhas ligações?

- Michelle, que parte você não entendeu que eu tô todo enrolado? É Vorcaro, Dark Horse, Banco Master, rachadinha, imóveis, milícia, loja de chocolate… Daqui a pouco eu não me elejo nem pra síndico. Mas, você é mulher, chegou ontem, não entende muito de política…

Michelle subiu nas tamancas:

- Não quer meu apoio? Me acha insignificante? É isso mesmo? Você é mais arrogante que o Silas Malafaia. Fique sabendo que minha opinão conta, e muito. Ontem mesmo, o Valdemar elogiou a minha opinião sobre o bife mal passado, bem passado e ao ponto. E depois, eu sou a Presidente Nacional do PL Mulher. Uma ligação minha pode arrasar com seu café da manhã e suas pretensões de ser presidente. Você sabia que as mulheres representam 52% do eleitorado brasileiro! Sabia?

E foi mais longe:

- Ouvi dizer que o Valdemar da Costa Neto, em conversas reservadas, já cogita substituir seu nome pelo meu na campanha - cutucou a ex-primeira dama.

- Nem por cima do meu cadáver! Quais são as suas credenciais? Ser casada com meu pai? Ex-primeira dama é uma credencial mais inútil que colar papel na testa pra curar soluço.

- O país precisa de uma mulher forte, sensível e determinada para encontrar o rumo do progresso. Chega de metalúrgicos e políticos ultrapassados! Isabel Perón, na Argentina; Lidia Gueiler, na Bolívia; Michelle Bachelet, no Chile; e Cristina Kirchner, na Argentina foram ótimas presidentes.

- E nós tivemos a Dilma Rousseff!!

Foi demais para a ex-primeira dama:

- Você é um mimado! Se seu pai, na época da ditadura, ao invés de perder tempo colocando bombas em quarteis, tivesse colocado você e seus irmãos no pau-de-arara, o mundo seria um lugar bem mais tranquilo de viver. Vou esperar o teu pai acordar da soneca da tarde e contar tudo para ele.

O senador explodiu:

- Deixa o velho em paz. Ele já tem o Alexandre de Moraes, o Flávio Dino e a Polícia Federal pra encher o saco dele. Quer saber? Começou o jogo da seleção brasileira. vou dar uma força pro Neymar.

- Vai sim, a carreira dele tá igual a sua: se cair de novo não levanta mais.

Flávio bateu o telefone.


*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.


terça-feira, 23 de junho de 2026

POLÍTICO ‘PASTEL’


O CANDIDATO 'PASTEL'
Rio - A campanha de Flávio Bolsonaro está subindo no telhado.
Houve muitas críticas no PL (Partido Liberal) à queda do senador nas pesquisas de intenção de voto para a presidência da República. Valdemar da Costa Neto, o presidente, já cogita convidar Michelle Bolsonaro para apagar o incêndio.
Lideranças do Centrão, no entanto, rejeitam o nome de Michelle para a sucessão presidencial. Michelle, cujo único parente que não tá preso é a filha menor Laura, não é vista pela extrema direita como uma candidata de peso.
Flávio Bolsonaro não é Jair. Escrivão e advogado conservador, Flávio não é nem sombra do que foi Jair Bolsonaro. Não tem o carisma, os votos e a autoridade do pai. Só herdou a falta de inteligência e a ganância.
Nos últimos dias, com as quedas de intenção de votos da sua candidatura, o parlamentar anda pelos cantos, triste, cabisbaixo, deprimido, ouvindo Wando e pensando em se matar.
A comissão de campanha de Flávio se reuniu as pressas, na última sexta-feira, para dar uma nova direção à campanha do parlamentar. A idéia é evitar que Flávio cometa o haraquiri.
As novas revelações do envolvimento incestuoso de Flávio com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, que destinou mais e 10 milhões de dólares ao clã Bolsonaro, azedou de vez a candidatura do Zero 1.
Valdemar reagiu:
- Meu Deus, Flávio! Você tá mais colado no Vorcaro que a Michelle no cangote do maquiador. Desta vez, qual foi o motivo do encontro com o banqueiro?
- Carência.
Políticos e aliados têm evitado defender ou se distanciado de Flávio, principalmente após o desgaste com o Banco Master. Romário, Ciro Noqueira, Hugo Motta, Ronaldo Caiado, Nikolas Ferreira e Romeu Zema já fizeram críticas públicas ao candidato.
Para piorar, Eduardo Bolsonaro, o filho zero 3 de Bolsonaro, segue sendo o camisa dez do time de Lula. O ex-deputado é capaz de dizer cada semana uma imbecilidade maior do que a da semana anterior. A última, foi defender o sistema de pagamento americano Zelle, mais caro, mais lento e mais inconfiável que o PIX, dando razão ao Lula que insiste em dizer que a família Bolsonaro defende os interesses americano contra o Brasil.
- Precisamos de uma estratégia agressiva para reverter esta situação. - disse, Rodrigo Saccone, assessor de imprensa do senador. - Ronaldo Caiado, Renan Santos, Aécio Neves, Augusto Cury, Romeu Zema, Samara Martins e até o Joaquim Barbosa já estão colados no seu calcanhar, pedindo passagem.
- O que você sugere? - quis saber Flávio.
- Tive pensando em usarmos de novo o golpe da facada. Deu certo com o Jair. Desta vez com sangue, claro. - sugeriu o assessor.
- Não podemos usar o plano da facada. As pessoas não vão acreditar. Muita gente até hoje não acreditou naquela cena. Até no filme Dark Horse ficou fake! E depois, eu choro quando vejo sangue. - disse.
- Fora isso, só um tiro, como o de Donald Trump, na orelha, de raspão. - sugeriu o assessor.
- Nada de facada nem tiros! Tô fora! - gritou o senador.
- Senador, em meio à crise gerada pela divulgação de negociações e áudios envolvendo o senhor e o banqueiro Daniel Vorcaro, só algo muito agressivo. Um dilúvio, uma praga de gafanhotos… mas a produção sairia muito cara e o Vorcaro já disse que não vai financiar mais nenhuma outra produção.
O assessor deu um tapa na testa:
- Tive uma ideia! Vamos pra feira comer pastel.
- Pastel de feira? Ficou louco! Daqui a pouco você vai me pedir para subir um morro, abraçar pobre e beijar crianças remelentas!
- Não há nada que alavanque mais uma campanhas eleitoral em queda que uma visita às feiras livres. Nós marketeiros chamamos este fenômeno de "temporada do pastel". Essa tradição consolidou-se como um verdadeiro rito de passagem para candidatos que desejam projetar uma imagem de proximidade com o eleitorado, transmitindo simplicidade e gerando grande repercussão na mídia.
- Tem certeza? - disse o senador, coçando a cabeça.
- Já preparei um roteiro: o senhor chega cercado de assessores e câmeras, faz um esforço visível para parecer natural e degusta a iguaria no meio do público. Não esqueça de limpar a boca com aqueles horríveis guardanapos e deixar cair caldo de cana e farelo nas roupas. O povo gosta disso. O objetivo semiótico por trás desse ato é apagar a distância social entre a elite política e a população trabalhadora, mostrando que o nosso candidato é popular, consome o mesmo alimento que o "povo. E ganhar as eleições, claro.
Políticos de diferentes espectros ideológicos — indo de Fernando Haddad, Rosangela Moro a Marconi Perillo — já registraram suas passagens por bancas de feira para se misturar com os eleitores e tentar resgatar popularidade, em momentos de crise. Até jornais internacionais, como o e El País, já cobriram dias de campanha em feiras livres, no Brasil, observando como o pastel divide espaço com o humor e a realidade política do país.
De repente, gritos e correria na feira. Em uma barraca próxima, Lula comia uma buchada e bebia cachaça, cercado por uma multidão.
O assessor foi demitido.
*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.