domingo, 28 de junho de 2026

1968, O ANO DE ZUENIR VENTURA



por Ediel Ribeiro


Rio - Conheci Zuenir Ventura em 1981, no Leblon. Eu tinha acabado de ler “1968: o Ano Que não Terminou” quando esbarrei com ele na Livraria do Pasquim. Trocamos apenas algumas palavra, sobre o livro, acho. Mas nunca esqueci a doçura, a gentileza, a elegância e a inteligência do escritor.


Este mês Zuenir fez 95 anos.


Zuenir é um dos mais consagrados jornalistas e escritores brasileiros. Conhecido pelo olhar aguçado sobre a sociedade e o texto apurado, Zuenir ocupa a Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo o dramaturgo, poeta e romancista Ariano Suassuna. Zuenir consolidou sua trajetória através de coberturas históricas, livros fundamentais e crônicas diárias.


Nascido Zuenir Carlos Ventura, no dia 1 de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais era  filho de Antônio José Ventura e de Herina de Araújo. Aos 11 anos mudou-se com a família para Nova Friburgo e começou a trabalhar como pintor. Depois foi contínuo de banco, faxineiro e balconista.



Zuenir passou por Fonte Nova e Friburgo antes de chegar ao Rio de Janeiro, em 1954, para estudar filosofia. Na faculdade foi indicado pelo professor Élcio Martins para trabalhar nos arquivos da Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, seu primeiro emprego no jornalismo. 


Trabalhava de seis à meia noite recortando jornal, selecionando fotos e textos. Um dia, deram a ele a incumbência de escrever um texto sobre Camus. Carlos Lacerda gostou muito do texto e perguntou quem era o autor. “É o contínuo do arquivo”, disseram. Depois desse dia, Zuenir desceu para a redação e o resto é história.


Em 1954, no Rio de Janeiro, iniciou o curso de Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia, hoje UFRJ. Foi professor de Comunicação Verbal da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), fazendo parte, desde 1963, do grupo inicial fundador desta instituição, mais tarde absorvida pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Trabalhou nos jornais O Globo - onde ganhou o Prêmio Jabuti, em 1995 -, no "Correio da Manhã" e nas revistas "Veja", "O Cruzeiro" e "Visão". Em 1959, foi trabalhar em Paris como correspondente da "Tribuna da Imprensa".


É o sétimo ocupante da cadeira n.º 32 da Academia Brasileira de Letras, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do dramaturgo Ariano Suassuna. Tomou posse em 6 de março de 2015.


Seu livro 1968: o Ano Que não Terminou serviu de inspiração para a minissérie Anos Rebeldes, produzida pela Rede Globo. Além de “1968: o Ano Que não Terminou” — (Editora Nova Fronteira), Zuenir escreveu “Cidade Partida” (Companhia das Letras (1994); “Inveja: Mal Secreto” (Editora Objetiva (1998); “Chico Mendes: Crime e Castigo”; 1968: O Que Fizemos de Nós (Editora Planeta - 2009)) e Sagrada Família  (Alfaguara  - 2012)


Antes de vir para Ipanema, Zuenir morou por dez anos na Urca. No bairro, Zuenir foi preso pela primeira vez pela ditadura militar. “Botaram um grampo no telefone,  o vizinho viu, mas não me avisou”. 


Nos anos 70 foi morar em Ipanema. “Tudo aconteceu no Rio de Janeiro, em 1968. O AI-5 foi aqui; a passeata dos 100 dias, foi aqui; a morte de Edson Luís, foi aqui; a morte de Zu-Zu Angel e do filho dela, tudo foi aqui.


Ziraldo era o guru do Zuenir. “Eu sempre tive muita inveja do Ziraldo, do sucesso do Ziraldo”. “Quando falaram que Ziraldo foi aplaudido por 20 mil pessoas no Maracanãzinho, quando ele foi jurado no famoso Festival Internacional da Canção (FIC) eu fiz uma piada brincando com o ego dele: “Ziraldo, você sabe que tinha um cara lá em cima que te vaiou?” (risos). Além de integrar o júri, o artista desenhou o cartaz e o cobiçado troféu "Galo de Ouro", que era entregue aos vencedores e confeccionado pela joalheria H. Stern.


Zuenir conheceu a mulher Mary na redação da Tribuna da Imprensa. Zuenir era adorado pelo pessoal do cinema. Seus maiores amigos foram Joaquim Pedro, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Jabour.


“Eu descobri o J. Carlos graças ao Cássio Loredano. Um dia ele levou os desenhos do J. Carlos lá em casa e começou a me mostrar. Aí eu fiquei deslumbrado. J. Carlos tinha um talento enorme e dois defeitos: não bebia nem gostava de boteco.”


O Rio tem a mania de desnudar seus ídolos. Brigitte Bardot esteve no Rio de Janeiro em 1962. O Rio parou pra ver Brigitte Bardot. Na segunda semana, quando ela entrou no Bar Degrau, Jaguar virou e disse: “Lá vem aquela chata da Brigitte Bardot”. Ninguém aguentava mais ela.



*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.


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