terça-feira, 23 de junho de 2026

POLÍTICO ‘PASTEL’


O CANDIDATO 'PASTEL'
Rio - A campanha de Flávio Bolsonaro está subindo no telhado.
Houve muitas críticas no PL (Partido Liberal) à queda do senador nas pesquisas de intenção de voto para a presidência da República. Valdemar da Costa Neto, o presidente, já cogita convidar Michelle Bolsonaro para apagar o incêndio.
Lideranças do Centrão, no entanto, rejeitam o nome de Michelle para a sucessão presidencial. Michelle, cujo único parente que não tá preso é a filha menor Laura, não é vista pela extrema direita como uma candidata de peso.
Flávio Bolsonaro não é Jair. Escrivão e advogado conservador, Flávio não é nem sombra do que foi Jair Bolsonaro. Não tem o carisma, os votos e a autoridade do pai. Só herdou a falta de inteligência e a ganância.
Nos últimos dias, com as quedas de intenção de votos da sua candidatura, o parlamentar anda pelos cantos, triste, cabisbaixo, deprimido, ouvindo Wando e pensando em se matar.
A comissão de campanha de Flávio se reuniu as pressas, na última sexta-feira, para dar uma nova direção à campanha do parlamentar. A idéia é evitar que Flávio cometa o haraquiri.
As novas revelações do envolvimento incestuoso de Flávio com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, que destinou mais e 10 milhões de dólares ao clã Bolsonaro, azedou de vez a candidatura do Zero 1.
Valdemar reagiu:
- Meu Deus, Flávio! Você tá mais colado no Vorcaro que a Michelle no cangote do maquiador. Desta vez, qual foi o motivo do encontro com o banqueiro?
- Carência.
Políticos e aliados têm evitado defender ou se distanciado de Flávio, principalmente após o desgaste com o Banco Master. Romário, Ciro Noqueira, Hugo Motta, Ronaldo Caiado, Nikolas Ferreira e Romeu Zema já fizeram críticas públicas ao candidato.
Para piorar, Eduardo Bolsonaro, o filho zero 3 de Bolsonaro, segue sendo o camisa dez do time de Lula. O ex-deputado é capaz de dizer cada semana uma imbecilidade maior do que a da semana anterior. A última, foi defender o sistema de pagamento americano Zelle, mais caro, mais lento e mais inconfiável que o PIX, dando razão ao Lula que insiste em dizer que a família Bolsonaro defende os interesses americano contra o Brasil.
- Precisamos de uma estratégia agressiva para reverter esta situação. - disse, Rodrigo Saccone, assessor de imprensa do senador. - Ronaldo Caiado, Renan Santos, Aécio Neves, Augusto Cury, Romeu Zema, Samara Martins e até o Joaquim Barbosa já estão colados no seu calcanhar, pedindo passagem.
- O que você sugere? - quis saber Flávio.
- Tive pensando em usarmos de novo o golpe da facada. Deu certo com o Jair. Desta vez com sangue, claro. - sugeriu o assessor.
- Não podemos usar o plano da facada. As pessoas não vão acreditar. Muita gente até hoje não acreditou naquela cena. Até no filme Dark Horse ficou fake! E depois, eu choro quando vejo sangue. - disse.
- Fora isso, só um tiro, como o de Donald Trump, na orelha, de raspão. - sugeriu o assessor.
- Nada de facada nem tiros! Tô fora! - gritou o senador.
- Senador, em meio à crise gerada pela divulgação de negociações e áudios envolvendo o senhor e o banqueiro Daniel Vorcaro, só algo muito agressivo. Um dilúvio, uma praga de gafanhotos… mas a produção sairia muito cara e o Vorcaro já disse que não vai financiar mais nenhuma outra produção.
O assessor deu um tapa na testa:
- Tive uma ideia! Vamos pra feira comer pastel.
- Pastel de feira? Ficou louco! Daqui a pouco você vai me pedir para subir um morro, abraçar pobre e beijar crianças remelentas!
- Não há nada que alavanque mais uma campanhas eleitoral em queda que uma visita às feiras livres. Nós marketeiros chamamos este fenômeno de "temporada do pastel". Essa tradição consolidou-se como um verdadeiro rito de passagem para candidatos que desejam projetar uma imagem de proximidade com o eleitorado, transmitindo simplicidade e gerando grande repercussão na mídia.
- Tem certeza? - disse o senador, coçando a cabeça.
- Já preparei um roteiro: o senhor chega cercado de assessores e câmeras, faz um esforço visível para parecer natural e degusta a iguaria no meio do público. Não esqueça de limpar a boca com aqueles horríveis guardanapos e deixar cair caldo de cana e farelo nas roupas. O povo gosta disso. O objetivo semiótico por trás desse ato é apagar a distância social entre a elite política e a população trabalhadora, mostrando que o nosso candidato é popular, consome o mesmo alimento que o "povo. E ganhar as eleições, claro.
Políticos de diferentes espectros ideológicos — indo de Fernando Haddad, Rosangela Moro a Marconi Perillo — já registraram suas passagens por bancas de feira para se misturar com os eleitores e tentar resgatar popularidade, em momentos de crise. Até jornais internacionais, como o e El País, já cobriram dias de campanha em feiras livres, no Brasil, observando como o pastel divide espaço com o humor e a realidade política do país.
De repente, gritos e correria na feira. Em uma barraca próxima, Lula comia uma buchada e bebia cachaça, cercado por uma multidão.
O assessor foi demitido.
*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.

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