por Ediel Ribeiro
Rio - Outro dia, num papo com Adão Iturrusgarai, direto da Patagônia Argentina, falávamos sobre o trabalho de Banksy, Keith Haring, Gary Panter, C215 e o pintor neo-expressionista americano Jean-Michel Basquiat.
Adão conhece essa turma toda.
Adão, é obvio, tem forte influência em suas pinturas do estilo Basquiat. Mas, segundo o próprio Adão, seu trabalho também bebe da fonte de outro artista: o porto-alegrense, Jaca.
Confesso, não conhecia. Como Banksy, quase ninguém conhece o Jaca. O artista, nascido em Porto Alegre em 1957 e radicado em São Paulo, trabalha nas sombras. É discreto e tímido.
Paulo Carvalho Jr., mais conhecido como Jaca, começou a ilustrar aos 15 anos quando ainda morava em Porto Alegre, mais tarde, incentivado pelo amigo Fábio Zimbres, Jaca construiu um imaginário próprio, rico em personagens e cenários doentios, algo entre o desenho infantil e o surreal.
Começou sua carreira em 1978, publicando suas ilustrações nos jornais gaúchos ‘Folha da Tarde’, ‘Diário do Sul’ e ‘Zero Hora’, passando em pouco tempo a aparecer em outros jornais e revistas do país, como ‘O Estado de São Paulo’, ‘Playboy’, ‘Veja’, entre outros. Colaborou com as revistas de quadrinhos ‘Dundum’, ‘Animal’, ‘Big Bang’, ‘Flag’ e outras.
Artista multimídia, transita com muita facilidade pelo desenho, pintura, design gráfico, caligrafia, colagem, gravura, HQ’s e tem também algumas experiências com animações digitais. No Sul, Jaca colaborou com a ‘Dundum’, uma revista de quadrinhos criada por Adão e Gilmar Rodrigues que teve as participações de Schiavon, Fábio Zimbres, Gilmar Fraga, Guazzelli e Edgar Vasques, entre outros.
A revistinha, lançada em 1990, hoje seria classificada de politicamente incorreta. Irônica, debochada e escrachada, trazia piadinhas sobre como fazer sexo oral com débeis mentais e outras pérolas. Durou apenas três números.
Ilustrou alguns livros infantis para as editoras Cosac Naify, Hedra e Cia das Letras. Além da DunDum, teve seus quadrinhos publicados nas revistas especializadas Animal, Big Bang Bang, Cybercomics e Tarja Preta. Também produziu fanzines com quadrinhos e ilustrações experimentais. Em parceria com Fabio Zimbres desenvolveu o projeto “Desenhomatic Ltda”, alguns fanzines e publicações artesanais.
Toda a inquietação do artista está presente nos trabalhos que, a princípio, podem nos enganar. A aparente inocência se desmancha diante de um imaginário muito específico que serve como fonte de seus trabalhos. A formação de Jaca tem raízes no jornalismo, pois foi em redações de jornais que o artista viu surgir sua verve artística, gestada a partir do trabalho com a ilustração e quadrinhos distribuidos por vários jornais do país.
Em Porto Alegre, Jaca se aproximou do coletivo Nervo Óptico, formado pelo círculo da artista Vera Chaves Barcellos que era considerada a mais ativa vanguarda da época, tendo exibido Hélio Oiticica, Lygia Clark, Paulo Bruski entre outros, foi nesse espaço que o aspirante a artista, Jaca, encontrou liberdade para criar e voar.
E foi como ilustrador que Jaca começou a ganhar a vida e tornou-se conhecido já nos anos 80, quando também passou a influenciar outras artistas que o viam, como um ponta de lança nesse universo das publicações e editoras independentes que reuniam quadrinhos e produções alternativas às da grande indústria editorial.
Jaca costuma apresentar variadas cenas/situações simultaneamente, através das quais é construída uma complexa narrativa sobre o espaço imaginário do qual fazem parte. Em diferentes pinturas, algumas dessas cenas/situações e personagens podem reaparecer idênticas ou transformadas, sendo que o conjunto das suas pinturas formam uma construção permanente e acumulativa de uma cidade fantástica.
Jaca usualmente produz peças únicas e originais criadas a partir de cadernos, livros, telas e outras publicações, das quais o artista aproveita o objetos, mas os ressignifica pela pintura e interferência em todas as suas fontes seminais. Apesar da profusão de trabalhos, esboços e projetos nas mídias supracitadas, pode-se considerar a pintura sobre tela, a principal e mais importante mídia desenvolvida pelo artista. Nas pinturas, Jaca sintetiza e transpõe para o espaço pictórico, como se fosse uma ópera, todas as árias que compõem o conjunto da obra. Jaca novamente se uniu a Fábio Zimbres para produzir o livro ‘Corte e Costura’, lançado em 2025 pela MMarte. O livro, mais um projeto da Desenhomatic Ltda, pensado para ser um fanzine, foi produzido entre Porto Alegre e São Paulo entre os anos de 2022 e 2024.
A produção, segundo Zimbres, se deu mais ou menos assim: Jaca enviou uma série de 30 desenhos horizontais para Fabio Zimbres, que os dividia ao meio e completava cada metade. Dessa forma, nasceram 60 obras feitas em parceria, estabelecendo uma meta-narrativa visual com todas as idiossincrasias típicas da dupla.
Em 1991, Jaca ganhou o Troféu HQ Mix na categoria "desenhista revelação". Atualmente, Jaca se dedica à pintura, participando de diversas exposições coletivas e individuais.
*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.

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