sábado, 28 de fevereiro de 2026

UM MALUCO CHAMADO FERRETH



por Ediel Ribeiro


Rio - Ferreth foi um dos primeiros amigos que fiz no meio artístico.

Dizem que ele é maluco. Eu não concordo, nem discordo, muito pelo contrário. Mas é assim que os mais chegados chamam ele: ‘Maluco’. Ele também chama todo mundo assim.

Francisco Ferreth é um cartunista, ilustrador e designer gráfico brasileiro com trajetória iniciada nos anos 70.

A década de 1970 foi marcada pela contracultura e movimentos culturais que questionavam os valores e buscavam quebrar paradigmas. Foi uma década marcada por enorme tensão política, sobretudo por causa da Guerra Fria e a disputa travada por norte-americanos e soviéticos. Foi o período de surgimento da cultura disco, mas também da cultura hippie. Aqui no Brasil, vivíamos um período de grande efervescência cultural, mas estávamos sob a égide de uma ditadura conduzida pelos militares. 

Meio hippie e meio louco, Ferreth abandonou a Marinha (era Fuzileiro Naval) e, barbudo, cabelos compridos e mochila nas costas, deixou Canguleiro das Rocas, bairro de Natal-RN (uma das regiões mais antigas da capital, fundado em 1877, conhecida por ser um reduto tradicional de pescadores na zona leste) rumo ao Rio de Janeiro. 

No Rio, passou a acompanhar o trabalho de artistas como Ziraldo, Henfil e Nani, e resolveu mandar seus desenhos para o Pasquim - publicação lançada no fim da década de 60 e considerado o veículo de comunicação mais influente de oposição à ditadura militar - onde trabalhavam os maiores cartunistas e ilustradores brasileiros. "Eu queria ser cartunista, mas tinha medo de ser preso", disse. "Os caras me diziam 'tem que enfiar o dedo na ferida', mas eu não estava a fim de ser preso", confessou.

Depois de ‘O Pasquim’, publicou trabalhos no jornal carioca ‘Extra’, no ‘Jornal do Brasil’, na ‘Hora do Povo’ (SP), ‘Cartoon’ e em ‘O Dia’, do Rio de Janeiro, onde criou as tirinhas do personagem ‘Dimenor’, uma crítica social a situação dos meninos de rua. Em 1999, o personagem ‘Dimenor’ inspirou uma revista homônima. "A minha inspiração vem de coisas que vejo na rua, capto a idéia e transformo de uma maneira engraçada ou trágica para o público, que, às vezes, não está entendendo uma determinada situação", disse.

Ao longo da carreira atuou em animações como “Xuxinha”, uma série em desenho animado, produzido em 1998, inspirada na personagem homônima e no filme "Turma da Mônica em Uma Aventura no Tempo" (2007),  um longa-metragem de animação digital onde Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e Franjinha viajam por diferentes épocas para recuperar memórias apagadas por um vilão. Com Ziraldo, trabalhou na “Revistinha do Ziraldo”, “Bundas”, “Menino Maluquinho” e ilustrou filmes e livros infantis. Na TV criou vinhetas para  o PLIM PLIM da TV Globo (como “O sapo e os vaga-lumes” e “Foto submarina”). 

Entre 2011 e 2015, lançou os livros "Dinho e seus Dedinhos"; "Dinho com os Bichinhos" e "Deu a louca nos vegetais", todos em parceria com a escritora Mariângela Guadagnin. Seus mais recentes trabalhos foram os livros "De volta do Planeta Vermelho" (texto e ilustração), "O Menino das Cores", "Ai, que medo de hospital", todos pela CJA Edições.

Ferreth criou e organizou por 10 anos a “Mostra Internacional de Humor Ecológico da Ilha Grande” e foi também o idealizador do “Encontro Anual de Cartunistas”, na Praia do Leme, no Rio de Janeiro. Com o slogan, “Pro Ano Não Morrer Na Praia”, os encontros contaram com dezenas de cartunistas de todo o país, entre eles: Adail, Adam, Afonso Carlos, Alecrim, Aliedo, André Brown, Amorim, Aviz, Beto, Cláudio, Cavalcante, Chico Caruso, César Guedes, Erick, Edra, Ediel Ribeiro, Fábio, Ferreth, Frata, Gecelmo, Glen, Guidacci, Gustavo, Jaguar, J.Bosco, Jorge Inácio, Léo Martins, Léo Valença, Liberati, Leonardo, Luimar, Moura, Magon, Mattias, Mayrink, Mariano, Nani, Nei Lima, Paulo Caruso, Pedro Ferreira, Rosa Duval, Rê, Souza, Souto Maior, Ykenga, Vanes, Zé Dassilva e Ziraldo.

"Já nasci desenhando", diz o cartunista Ferreth. Mesmo antes de aprender a ler, eu folheava gibis com histórias em quadrinhos e sabia narrá-las só de olhar as figuras. Fui tomando gosto pelo desenho, meu pai dava força, comprava para mim cadernos para colorir. Sempre fui ligado na arte", disse.

Tenho muitas histórias com o Ferreth. Daria um livro. Uma delas: “Numa das muitas idas e vindas - foram dez anos - a Ilha Grande, por conta de uma Mostra de Humor, realizada por ele, Ferreth me colocou - o safado jura, até hoje, que não foi ele - numa pousada no fim do mundo. No pico do Abraão. Perto do presídio onde cumpriu pena Madame Satã, na época da ditadura. O lugar era tão longe que nem o carregador quis levar minha bagagem até lá. "Nem fudendo!" - disse ele. Era longe. Tão longe que, no caminho, passamos por uma placa escrito: inferno - 7 Km. 

A pousada era uma merda, mas a vista era maravilhosa! No meio do quarto, tinha uma pedra enorme. Juro! Quando construíram a pousada, devem ter esquecido ela lá. Lembrei-me de um famoso poema de Carlos Drummond de Andrade - cujos versos repetiam: "No meio do caminho tinha uma pedra" - publicado em 1928, na 'Revista de Antropofagia'.

Por causa da distância, eu saía da pousada pela manhã e só retornava à noite para dormir. Bêbado.

Atualmente, Ferreth mora no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, com a esposa, a escritora e pedagoga Mariângela Guadagnin.


*Ediel Ribeiro é jornalista,cartunista e escritor.


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