por Ediel Ribeiro
Rio - Nem todo bêbado bebe para esquecer.
Mas quase ninguém lembra do Bar Bem.
O Bar Bem, inaugurado na década de 1960 em São Conrado, no Rio de Janeiro, foi um bar da moda, lembrado como um marco arquitetônico da região.
Era. Hoje ninguém lembra mais.
Reza a lenda que o Bar Bem foi projetado por Oscar Niemeyer. Embora não haja registros oficiais, a lenda ganhou força por suas formas modernistas arredondadas, como o Hotel Nacional e a Casa das Canoas, outros projetos de Niemeyer, em São Conrado.
A Casa das Canoas serviu de residência de Oscar Niemeyer e sua família até 1959, quando o arquiteto se mudou para Brasília. Era no bucólico São Conrado que o arquiteto reunia sua família e amigos, como o ex-presidente Juscelino Kubitschek.
O projeto modernista do ‘Bar Bem’ destacava-se pela forma circular, sustentada por uma grande "bandeja" retangular que servia como varanda e terraço, integrando-se harmoniosamente ao ambiente natural. Além da correta distribuição do sol pela fachada com vidros na área do sol da manhã e pesados brises de alvenaria na parte virada para o sol da tarde.
Ali, nos anos 60 e 70, se reunia a turma que faria história no humor, na música e na literatura brasileira. Localizado próximo à Igrejinha de São Conrado, o bar era um ponto de encontro de artistas, jornalistas, cartunistas e escritores. O bar tornou-se conhecido por seu ambiente acolhedor e pelo famoso pastel que conquistou gerações de frequentadores. Um pouco mais tarde, no início dos anos 70, com a construção do Hotel Nacional e a abertura da auto-estrada Lagoa-Barra, o movimento no bar aumentou muito.
"É um Mal não frequentar o Bem", era o jingle do programa ‘Ritmos de Boate’, do Dj Big Boy, na Rádio Mundial. "Ritmos de Boate" era um programa diário patrocinado pelo ‘Bar Bem’ e ‘Vip´s Motel’, ambos de propriedade de Ignácio de Loyola. Uma curiosidade sobre o ‘Motel Vip's’: o nome foi criado com as letras iniciais dos três filhos do Ignácio de Loyolla. Vera, Ignacio e Pantaleão.
Construído nos anos 50, às margens das estradas turísticas do antigo Distrito Federal e posteriormente Guanabara, por Ignácio de Loyola Barros (não confundir com o escritor Ignácio de Loyola Brandão), empresário do Rio, ligado ao ramo de restaurantes, padarias e motéis e pai da socialite carioca Vera Loyola, o ‘Bar Bem’ era ponto de encontro de toda a arte, o social e os empresários do Rio.
“Muitas vezes fui para lá trabalhar, ainda garota. Eu estudava em colégio interno e nos finais de semana eu ia pra lá ajudar no caixa”, conta Vera Loyola.
O ‘Bar Bem’ era mais do que um simples ponto de encontro: era quase um anexo da praia e uma espécie de extensão boêmia de Ipanema. O bar atraía quase todo o tipo de frequentador; as famílias nos fins de semana, os engravatados do Centro, os jovens que frequentavam a praia e os casados que queriam discrição com os “casos”. Enfim, um lugar carioca.
O cenário era clássico: Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Torquato Neto, Carlos Leonam e Millôr Fernandes, uma turma de intelectuais e artistas engajados, mas também viciados em praia, chope e humor, que não passavam de uma esquerda festiva.
A frase “Esquerda Festiva”, por sinal, foi pronunciada numa festa no bar, na década de 1960, quando o então Ministro das Relações Exteriores do governo de João Goulart, San Tiago Dantas decidiu que haviam duas esquerdas: a positiva e a negativa. Leonam, que estava dançando, correu para a mesa, onde estava a turma, e disse que tinha outra esquerda. Era a esquerda festiva.
A frase caiu como uma luva. Era irônica, mordaz e, ao mesmo tempo, uma fotografia perfeita da geração que transformava os bares da Zona Sul em trincheiras boêmias contra a caretice do regime.
O bar funcionou na sua forma original até o final dos anos 70, quando foi arrendado pelo empresário Chico Recarey. O empresário instalou um restaurante de frutos do mar e, na parte de cima, com acesso por uma lateral a Zoomp, uma boate que se tornou famosa nos anos 80. Já no séc. XXI o imóvel, já completamente desfigurado, em nada lembrando suas formas modernistas, foi demolido.
*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.

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