domingo, 6 de fevereiro de 2022

ADAIL, ENTRE TRAÇOS E SONS



Rio – Como cartunista é impossível não ser fã do Adail.

Conheci Adail há mais de 20 anos. Éramos vizinhos. Trabalhamos juntos no "O Municipal" – jornal onde, por sinal, Ibrahim Sued começou, antes do sucesso no jornal "O Globo".

Adail José de Paula nasceu em 1930 em Registro, interior de São Paulo, e foi criado em Jaçanã. Publicou os primeiros desenhos em 1948, nos semanários humorísticos “O Governador” e “A Marmita”.

Em 1955, mudou-se para o Rio de Janeiro. Seu primeiro emprego foi no jornal “Diário de Notícias”. Trabalhou também no “Jornal dos Sports”, revista “O Cruzeiro”, “Correio da Manhã”, “Pasquim” e “O Dia”, entre outros. 

Adail era cartunista, jornalista e membro do Conselho da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Aposentou-se pelo jornal “Última Hora”, mas nunca abandonou o desenho. Colaborava regularmente para o “Jornal Espírita” e trabalhava fazendo caricaturas ao vivo em eventos.

Em abril de 2008, seus trabalhos integraram a exposição “Traços Impertinentes”, comemorativa ao centenário da ABI, que homenageou cerca de 50 desenhistas entre os quais Henfil, Aroeira, Jaguar, Lan e Nani.

Também na ABI, o cartunista esteve em cartaz com a exposição “Adail – Uma grande homenagem – Quadrinhos no Brasil: O Suplemento Juvenil e outras histórias”, com curadoria de Athos Cardoso. 

Em junho de 2012, batemos um longo papo no restaurante Exotic, em Caxias. Adail era bom de papo. Gostava de falar da origem humilde em São Paulo e, principalmente, de desenho e música, suas duas paixões.

“Na verdade, eu nasci no interior de São Paulo, na cidade de Registro, em 1930. Fui militar, e já na caserna fiz meus primeiros desenhos. Era boêmio, gostava da noite e de beber. Fui contemporâneo de Adoniran Barbosa, Grande Otelo. Bebi com essa gente toda. Publiquei meus primeiros desenhos com 18 anos nos jornais "O Governador" e "A Marmita". Vim para o Rio de Janeiro em 1955 e fui trabalhar no "Diário de Notícias", onde fiquei por 20 anos. Trabalhei também na revista "O Cruzeiro" e nos jornais "Correio da Manhã", "Jornal dos Sports", "O Pasquim", "Cartoon", "O Globo" e "O Dia", entre outros. Publico também há 20 anos meus cartuns no "Jornal Espírita". Me aposentei pelo jornal "Ùltima Hora", em 1991.”

Com relação ao seu estilo, não negava a forte influência da escola argentina.

“Eu comecei copiando Divito (Guillermo Divito 1914-1969), um cartunista argentino que publicava no semanário "Patoruzú", de Buenos Aires e depois criou seu próprio jornal de humor chamado "Rico Tipo". No Brasil, sempre fui fã do Henfil e do Nássara. Trabalhei com eles no "O Pasquim". Adorava ver o Henfil desenhar. Era um gênio.”

Aos poucos, Adail foi criando seu próprio estilo de desenho simples e piadas leves e populares. Graças ao tom leve de seus cartuns, o cartunista nunca teve problemas maiores com a Ditadura Militar.

“Era uma época difícil pra todos nós que trabalhávamos com arte e cultura em geral. Os milicos não deixavam passar nada. Era preciso fazer três jornais para publicar um. 80% dos textos e desenhos eram censurados. Felizmente, eu nunca tive problemas.”

Era compositor. Fez músicas pro Flamengo e pro Corinthians, seus times de coração. Sempre que nos encontrávamos me mostrava uma nova canção.

“Tenho muitas músicas compostas. Sambas, músicas de dor-de-cotovelo, tudo. Tenho músicas de protestos, músicas para campanhas institucionais, músicas para a Copa do Mundo. Quando não estou desenhando, tô escrevendo músicas.”

Em 2016, o quadrinista João Carpalhau e o Grupo Capa Comics deram o nome  de Adail José de Paula a Gibiteca da cidade de Duque de Caxias, numa homenagem ao cartunista.

O cartunista morreu aos 83 anos, na madrugada de quarta-feira, dia 5 de fevereiro de 2014, em sua residência em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro.

* Ediel Ribeiro é jornalista, escritor e cartunista

* Foto: Nei Lima


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